22.11.09

Jornalista desempregado (263)

Espírito Santo pode prender pai que deixa filho fora da escola

O governo do Espírito Santo e o Ministério Público do Estado querem localizar crianças e adolescentes que não estejam matriculados na escola. Pais que resistirem em matricular seus filhos poderão ser detidos por 30 dias e pagar multa de até R$ 9.330. Um número de telefone gratuito (127) foi colocado à disposição para receber denúncias.

O secretário da Educação, Haroldo Corrêa Rocha, estima que cerca de 80 mil crianças e jovens até 17 anos estejam fora das salas de aula no Estado. Atualmente, 930 mil alunos estão matriculados em toda a rede de ensino pública e privada.

fonte: Folha Online
dica do Tom Fernandes


O Espírito Santo prende e o Filho é advogado. Confa das brabas... :P


Em defesa da preguiça

“O trabalho tende ao repouso, e não o repouso ao trabalho” (Aristóteles).

“O operário coloca sua vida no objeto. Mas então esta não lhe pertence mais, pertence ao objeto” (Marx).

“Trabalhar por trabalhar é loucura ou prisão” (André Comte-Sponville).

Mário de Andrade tinha 25 anos quando escreveu um texto de três páginas que publicou no jornal paulistano A Gazeta no dia 3 de setembro de 1918. O título: “A Divina Pre­­guiça”. É um texto pouco citado e, desconfio, pouco lido. O que é curioso, já que a exclamação de Macunaíma – “Ai, que preguiça!” – é repetida como um bordão consagrado sempre que se fala a respeito do herói sem ne­­nhum caráter.

O romance Macu­naíma foi publicado em 1928, portanto Mário teve pelo menos dez anos para virar e revirar em sua mente as ideias que lançou no artigo em que sintetiza uma crítica ao trabalho, um elogio do ócio e uma divinização da preguiça. Mas não se trata de qualquer preguiça, nem de qualquer ócio ou de qualquer trabalho.

A data em que o artigo foi publicado é importante, pois na Europa a Primeira Guerra Mun­­dial ainda rugia – terminaria dentro de três meses. O horizonte a partir do qual Mário enfoca a questão são os descaminhos que levaram à guerra e os princípios segundo os quais se pensa a civilização. Por isso o artigo inicia lembrando a oposição que habitualmente é feita entre momentos “de progresso, de estacionamento e de eras em que a civilização volta atrás”, equívoco que Mário combate. “Na passagem das civilizações” – diz ele – “como na própria vida, tudo é marchar”. Leia +.

fonte: Gazeta do Povo

texto ótemo p/ quem trabalhou durante todo o feriado como eu... =)

21.11.09

Que o Deus venha


Composição: ( Frejat / Cazuza / Clarice Lispector )

Sou inquieta, áspera
E desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa

Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais

Corro perigo
Com toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamete o inesperado

Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida


Curso de escutatória

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve
nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves

A absoluta importância do motivo

A prova pela qual toda conduta será finalmente julgada é o motivo. Como a água não pode subir mais alto do que o nível, assim a qualidade moral de um ato nunca pode ser mais elevada do que o motivo que inspira. Por esta razão, nenhum ato procedente de um motivo mau pode ser bom, ainda que algum bem pareça resultar dele. Toda a ação praticada por ira ou despeito, por exemplo, ver-se-á, afinal, que foi praticada a favor do inimigo e contra o reino de Deus.

Infelizmente, a atividade religiosa possui tal natureza, que muito desse tipo de atividade pode ser realizado por motivos maus, como a raiva, a inveja, a vaidade e a avareza. Toda a atividade desse tipo é essencialmente má e como tal será avaliada no julgamento.

Nesta relação de motivos como em muitas outras, os fariseus dão exemplos claros. Eles continuam sendo o mais triste fracasso religioso do mundo, não por causa do erro doutrinário, nem porque eram pessoas de vida abertamente dissoluta. Todo o problema deles estava na qualidade dos seus motivos religiosos. Oravam, mas para serem ouvidos pelos homens, e, deste modo, o seu motivo arruinava as suas orações e as tornavam inúteis e, realmente más.

Contribuíram para o serviço do templo, porém, às vezes, o faziam para escapar do seu dever para com os seus pais, e isso era um mal, um pecado. Os fariseus condenavam o pecado e se levantavam contra ele, quando o viam nos outros, mas o faziam motivados por sua justiça própria e por sua dureza de coração. Isso caracterizava tudo o que faziam. Suas atividades eram cercadas por aparências de santidade; e essas mesmas atividades, se fossem realizadas por motivos puros, seriam boas e louváveis. Toda a fraqueza dos fariseus estava na qualidade de seus motivos.

Isso não é uma coisa insignificante - é o que podemos concluir do fato de que aqueles religiosos formais e ortodoxos continuaram em sua cegueira, até que finalmente crucificaram o Senhor da glória, sem qualquer noção da gravidade do seu crime.

Atos religiosos praticados por motivos vis são duplamente maus - maus em si mesmos e maus por serem praticados em nome de Deus. Isto equivale em pecar em nome dAquele Ser que é impecável, a mentir em nome dAquele que não pode mentir e a odiar em nome dAquele cuja natureza é amor.

Os crentes especialmente os mais ativos, freqüentemente devem separar um tempo para sondar a sua alma, a fim de certificarem-se dos seus motivos.

Muito solo é cantado para exibição; muitos sermões são pregados para mostrar talento; muitas igrejas são fundadas como um insulto contra outra igreja. Mesmo a atividade missionária pode tornar-se competitiva, e a conquista de almas pode degenerar, tornando-se uma espécie de marketing eclesiástico para satisfazer a carne. Não esqueçam que os fariseus eram grandes missionários e rodavam o mar e a terra para fazer um converso.

Um bom modo de evitar a armadilha da atividade religiosa vazia é comparecer diante de Deus, sempre que possível, com nossa Bíblia aberta em I Coríntios 13. Esta passagem, embora seja considerada uma das mais belas da Bíblia, é também uma das mais severas dentre as que se acham nas Escrituras Sagradas. O apóstolo toma o serviço religioso mais elevado e consigna à futilidade, se não for motivado pelo amor. Sem amor, profetas, mestres, oradores, filantropos e mártires são despedidos sem recompensas.

Resumindo, podemos dizer que, aos olhos de Deus, somos julgados não tanto pelo que fazemos e sim por nosso motivos para fazê-lo. Não "o quê" mas "por quê" será a pergunta importante que ouviremos, quando nós, crentes, comparecermos no tribunal, a fim de prestarmos contas dos atos praticados enquanto estivemos no corpo.


A. W. Tozer [via Luz para o caminho]
tradução: Timóteo Sanches

O dedo de Deus



Composição: Arrigo Barnabé / Mário Manga

...E no princípio Deus criou o céu
E no princípio Deus criou a terra
A terra, porém, tava um caos
E as trevas dominavam tudo

Daí o dedo de Deus fez a luz
Daí o dedo de Deus fez o homem
Daí o dedo de Deus fez aquela que seduz
E o mundo cresceu?

- O mundo cresceu. Tudo mudou. Alguém perguntou:
- Será que Deus mudou? Ou será que mudamos de Deus?
Será que Deus mudou?
Ou será que mudamos de deus?

Será que quem criou o céu
É quem vai destruir a terra?
Será que quem criou a luz (da sombra)
É quem vai destruir a terra? (com a bomba)

Porque pra bomba explodir
Será que é homem?
Será que é mulher?
Será que aperta a hora que quiser?

Continua AQUI

Medos e dragões

Ilustração de Renato Alarcão - Niterói - RJ
.
Para quem não se lembra, "dragões ou dragos (do grego drákon, i.e., ‘grande serpente’) são criaturas presentes na mitologia de diversos povos e civilizações, representados como animais de grandes dimensões, semelhantes a imensos lagartos ou serpentes com asas, plumas, poderes mágicos ou hálito de fogo.

A variedade de dragões existentes em histórias é enorme e presente no folclore de povos tão distantes como chineses ou europeus. Assim, em cada cultura os dragões assumem função e simbologia diferentes, podendo ser fontes sobrenaturais de sabedoria e força, ou simplesmente feras destruidoras."

Sofia, ainda muito pequena, em torno de 3 ou 4 anos de idade, adorava desenhar dragões. Eram vermelhos, cinzentos, amarelos ou coloridos. Às vezes sorridentes, às vezes sérios, assustadores. Em paisagens com sóis e luas, nuvens e montanhas, ou apenas sobrevoando cidades, ou ainda escondidos atrás dos castelos. Papéis cheios de figuras reptilianas se multiplicavam espalhados pela casa e encaminhados para os tios, avós e amiguinhos.

Vovó não se conformava. Por que a netinha de bochechas rosadas e cabelos encaracolados simplesmente não desenhava bonecas e florzinhas como qualquer garota de 4 anos? Teria sofrido alguma espécie de influência subliminar? Deveria ser encaminhada a psicóloga de crianças? Vovó achava tudo isso muito estranho e um dia não resistiu: perguntou diretamente a desenhista o ‘porquê de tantos dragões’.

Com o sorriso mais tranquilizador do mundo,Sofia respondeu:

“- Vovó, eu desenho dragões para não precisar sonhar com eles. Assim eles não conseguem entrar nos meus sonhos! “

Pensei e ainda penso naquela resposta. Sofia decidiu enfrentar seus medos desenhando-os, pintando-os, levando-os para as mais diferentes paisagens e situações. Mudava as expressões dos monstros da forma que imaginasse. Colocava e tirava asas, soltava-os e também os prendia, aumentava e diminuía seus tamanhos.

Assim, aprendeu a domá-los, monstros e répteis, até transformá-los em figuras inofensivas . Tornou-os tão familiares e caricaturescos que haviam perdido seu poder de amedrontar . Agora não podiam mais entrar em seus sonhos.

Não se trata de receita ou fórmula mágica. Angústias e apreensões fazem parte da nossa existência e humanidade. Assim como os velhos receios se dissolvem, novos aparecerão na juventude, na maturidade e na velhice.

A questão é o que vamos fazer com nossos medos e dragões.Vamos encará-los ou permanecer submersos em pesadelos. Talvez precisemos brincar mais com nossos receios e monstros. Talvez gastemos muito papel, canetas, conversas e tempo para redesenhá-los.Vamos renomeá-los, tirar suas asas e seus hálitos de fogo.

Nem se trata de coragem. Precisamos deixar o orgulho de lado, feito criança pequena, e começar a partilhar alguns segredos e receios aos amigos e pessoas que nos amam de verdade. Porque o amor – o amor genuíno - embora não seja varinha de condão, tem o poder sobrenatural de dissolver o medo.

Experimente.

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