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9.5.10

Esse Deus é um brincalhão

Quem está certo?

389

Carlos Ruas, no Um sábado qualquer.
clique p/ ampliar

8.5.10

Lapsus



Os religiosos sempre são atraídos pelo lado negro?
Animação legal de Juan Pablo Zaramella.
dica do Jarbas Aragão

Mera distração e já era momento de se gostar



Me perguntaram no forms s/ Leila Pinheiro e s/ o Flávio Venturini. Aí me lembrei da versão delicada da Leila p/ a música dele e do Ronaldo Bastos.

SMS

O medo é supersticioso, não eu.

Tenho que vestir a mesma camisa surrada para assistir jogo do Inter. Quando estou em dúvida amorosa fecho um envelope vazio e mando pelo correio ao meu endereço. Só atendo o telefone no quarto toque. Coisas dessa laia.

Vivo abastecendo sinais, testando o sexto sentido. Sou um talentoso taquígrafo de suspeitas. Ansioso demais para aguardar estrelas cadentes ou velas de aniversário. Sopro pedidos a toda hora.

As viagens sucessivas me tornaram altamente atento aos detalhes, sempre à beira da morte ou de um milagre.

Embarquei para Poços de Caldas, com escala em Campinas. Sentei no fundo da aeronave e notei que esqueci a revista que comprei na tabacaria. Dei dinheiro de graça, idiota. Já entendi como uma advertência, que bobagem sair de casa. Tudo é uma mensagem das intenções do destino comigo. Abaixei os ombros e tentei adormecer, poderia ser também a manifestação do divino para acalmar o corpo e me poupar do estresse.

Quando encontrava a zona erógena das pálpebras, o avião começou a tremer. Ouvi que nos aproximávamos de uma zona de turbulência. Ou seja, mais importante do que qualquer zona erógena. Levantei a bandeja e puxei conversa com meu vizinho. Puxo papo apenas prestes a cair. Eu me sentia em desvalia, tal criança apresentando trabalho numa Feira de Ciências.

A asa farfalhava, isopor de aeromodelo. Logo iria quebrar. O vento corria a 220 km/h. As turbinas se soltariam em tocha olímpica, acrescentando crepúsculo ao céu paulista.

O quarentão que me acompanhava parecia simpático, falante, cheirando a loção pós-barba. Um pouco avarento, sem dúvida, já que escondeu dois pacotes de batatas chips no bolso do casaco. Cismei em questionar sua profissão. Levei um susto: pastor da Igreja do Sétimo Dia. Nunca havia me acomodado junto de um pastor. Era o selo do Juízo Final. Um pressentimento fúnebre. Ele estava ali para encomendar minha alma, recomendar os pecados para a triagem das cinzas.

Ainda suspirou diante da janela:
— Seja o que Deus quiser.

Apanhei suas palavras como uma extrema-unção. Não inspirava pose de cabra que lutaria pela sua permanência até o último baque. Entregou de cara o jogo ao juiz.

Ele me perguntou se tinha fé, falei que sim, senão não torceria para o Internacional. Meu riso não comoveu suas covinhas, tinha simpatia pelo time do Olímpico. Esclareceu que eu não deveria levar futebol a sério. Repliquei que se fosse gremista, não levaria mesmo. Ele fez um estrondoso sinal com o dedo na frente da boca:
— Shhhh!, não é momento de brincadeira.

E chamou a aeromoça pelo painel luminoso.

A atendente veio com aquele rebolado típico de desastre, batendo com suas coxas nas poltronas.
— O que deseja?
— Um lenço de papel, por obséquio?

Era a primeira vez que ouvia alguém usando obséquio. Claro agouro de que iria morrer. Uma premonição muito maior do que dividir o braço de couro com um pastor. Por obséquio, a gente escuta uma vez na vida e outra na morte. Significava um torpedo de Deus. São poucos os instantes em que o poderoso está online.

Fiz o levantamento das linhas tortas: a revista extraviada, o pastor e o obséquio; não havia escapatória, estava liquidado, dormi para sedar o efeito do fogo.

Ao acordar no aeroporto de Viracopos, eu me vi ludibriado. Como que sobrevivi? Não é justo traduzir profecias do aramaico e não receber a mínima atenção.

Fabrício Carpinejar
arte: Tereza Yamashita

A arte com elementos do cotidiano

açúcar.......................brinquedos............ ......lixo

Tudo vira arte nas mão de Vik Muniz

Ser artista é fugir no "normal", é ser diferente. Admiro quem tem a capacidade de transformar os elementos do cotidiano em arte. Vik Muniz é paulista, mas fez carreira em Nova York. Entre os materiais que usa estão caviar, chocolate, sucata, diamantes, macarrão e papel picado. Ele transforma essas coisas em imagens – em geral, retratos – e depois as fotografa.

Fez um retrato da atriz italiana Monica Vitti com diamantes e uma Mona Lisa de manteiga de amendoim. A idéia não é nova no mundo da arte, mas ele a transformou em marca registrada.

Vik é o primeiro brasileiro a organizar uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, um dos mais influentes do mundo. Conheça um pouco mais desse artista no video abaixo e no seu site.

Exposição de quadrinhos destaca o caráter judaico dos super-heróis

Se o Super-Homem pudesse passar da ficção à vida real, Hitler teria terminado seus dias em um tribunal da então Liga das Nações em Genebra e o campo de extermínio de Auschwitz jamais teria existido: é o que mostra a exposição "Heróis, Monstros e Super-Rabinos: Quadrinhos com Cores Judaicas", cuja abertura está marcada para o dia 8 de agosto no Museu Judaico de Berlim.

A mostra apresenta mais de 200 desenhos originais, entre eles verdadeiras raridades dos personagens mais populares do mundo da HQ.

Hulk, Batman, Super-Homem e o Homem Aranha, entre outras das figuras mais conhecidas do panteão dos quadrinhos americanos, foram criados por um descendente de família judaica emigrada da Europa, como destaca a exposição, dedicada a 45 célebres desenhistas.

A idade de ouro dos quadrinhos de super-heróis teve início entre as décadas 30 e 40 do século 20 -- e foi neste turbulento período que os heróis viveram suas primeiras aventuras no papel.

Muito antes dos Estados Unidos entrarem na guerra contra o Eixo nazi-fascista, Adolf Hitler e companhia já eram combatidos entre as quatro linhas das histórias em quadrinhos.

"O objetivo da mostra não é fazer dos quadrinhos uma especialidade judaica", explica Anne Helene Hoog, curadora da exposição. "O ponto é indagar por que tantos desenhistas eram judeus e que assuntos os preocupavam".

Em fevereiro de 1940, quase dois anos antes do ataque japonês à base naval de Pearl Harbor -- que precipitou a entrada americana na Segunda Guerra Mundial --, Jerry Siegel e Joe Shuster desenharam um acerto de contras entre o Super-Homem e Hitler no gibi "Como o Super-Homem Acabaria com a Guerra".

"Eu te daria um soco não-ariano direto no queixo, mas não tenho tempo!", diz o Super-Homem a Hitler, que apesar de ter sido entregue à Suíça para ser julgado -- junto com Stalin -- não se impressiona muito com a ameaça.

Um mês depois, Jack Kirby (cujo verdadeiro nome é Jacob Kurtzberg) e Joe Simon criam uma história na qual o Capitão América desbarata um plano de invasão dos nazistas, aproveitando para aplicar uma magistral bofetada em Hitler na capa da revista.

À imagem e semelhança de seus criadores, os super-heróis eram muitas vezes personagens relativamente marginais, com sentimento patriótico exacerbado -- como muitas vezes acontece com os imigrantes, destaca Hoog.

"É claro que judeus -- em particular filhos de imigrantes, pessoas pobres, refugiados -- foram afetados pela miséria, pelo medo, pela violência, pela injustiça e, claro, pelo extermínio que acontecia então no mundo", estima a curadora. "Precisávamos de super-heróis nos anos 30", afirma.

Embora nenhum dos personagens dos quadrinhos fosse abertamente judeu, suas aventuras são repletas de referências ao Antigo Testamento, indica por sua vez Cilly Kugelmann, diretora de programação do Museu Judaico.

"Como Moisés, o super-herói é um bebê abandonado criado por pessoas que o encontraram", cita como exemplo, lembrando que também são encontradas referências claras às mitologias grega e germânica. Leia +.

fonte: UOL

5.5.10

Três caras e quatro acordes



Fiz o teste e funcionou para 99% dos mantras gospel.

Dica do Guilherme Basílio

Tranquilo no mamilo

Atriz de 16 anos que mostra seio em peça nega pornografia: 'É poético'

Envolvida numa polêmica por mostrar o seio no musical "O Despertar da Primavera", a atriz Malu Rodrigues, de 16 anos, diz ter ficado "chateada" ao saber que o Ministério Público de São Paulo e o do Rio de Janeiro apuram a suspeita de os responsáveis pela peça terem infringido o Estatuto da Criança de do Adolescente (ECA) ao permitirem a exibição da parte íntima da adolescente no espetáculo.

Em entrevista ao G1, a garota, de 1,64 m e 50 kg, filha de pais separados (mora com o pai e avó), emancipada, estudante do segundo ano do ensino médio em um colégio de freiras, diz que é virgem e que jamais teve um namorado. Ela afirma ainda que a cena em que exibe um dos seios "tem todo um contexto". "Não é igual a uma foto de mulher pelada na Playboy."

Maria Luisa Rodrigues deu a entrevista por telefone. Falou por quase 20 minutos com a reportagem enquanto fazia o trajeto em um táxi, do colégio onde estuda ao curso de canto, no Rio de Janeiro. A conversa teve o consentimento do pai, Sérgio Rodrigues, de 47 anos. "Ninguém que assistiu à peça saiu de lá chamando minha filha de gostosa ou piranha."

A adolescente diz que "entende" o trabalho da Promotoria, mas afirma que teve autorização de um juiz da Vara da Infância e da Juventude para atuar no palco durante os quase dez meses em que a peça, do autor alemão Frank Wedekind, esteve em cartaz entre Rio e São Paulo. A temporada terminou no dia 2 de maio.

"Não tem nada de pornografia (...) eu exibo meio seio direito. É uma cena rápida que fecha o primeiro ato", "é uma peça poética", "é o descobrimento do amor, não do sexo" e "continuo sendo a menina que sempre fui" são algumas das frases ditas por Malu Rodrigues - um recado para quem considera que o musical tenha infringido o artigo 240 do ECA, que considera crime quem "produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente". Não necessariamente o adolescente precisa estar nu para caracterizar a infração. A pena para quem for condenado pode chegar a oito anos de reclusão e multa. Leia +.

fonte: G1

1.5.10

Pequenas artes

Slinkachu é um artista urbano que mora em Londres, mas "comete" sua arte em diferentes partes do mundo. Sua arte urbana pode parecer tão estranha quanto seu pseudônimo, já que ele não divulga dados pessoais como fotos ou seu nome verdadeiro.
Desde 2006 usa bonequinhos originalmente utilizados em maquetes, uma máquina fotográfica e muita criatividade para lançar um olhar "liliputiano" sobre o cotidiano. Sua arte procura reler o Sua proposta é relembrar que até as pequenas coisas tem sua importância. Em 2008 começou um projeto mais inusitado ainda: pintar caramujos e soltá-los pela cidade. Ele diz que gosta de deixar as figuras no local e observar a reação das pessoas que passam por ali.
O artista tem blogs dos projetos Little People e Innercitysnail, onde é possível ver fotos de várias instalações dele como as que estão abaixo.

O que nos une e o que nos separa (longe)
O que nos une e o que nos separa (perto)
Leite derramado
Hora do rush (perto)
Hora do rush (longe)
Pintores

Enquanto é gratuito eu quero o seu amor



o On the Rocks é um grupo de cuecas da Universidade de Oregon (EUA) que canta a capella. olha só a versão dos cara p/ Bad romance, da Lady Gaga. Uau! =)
via Bombou na web
dica do Guilherme Massuia

Pelo bem de sua memória

Se um familiar ou um amigo morre, não vou elogiá-lo.

Não me peça para fazer discurso ou poema. Não me peça nada. Nem que eu resista e que não sofra. Sou imprevisível. Toda perda é imprevisível, apesar do pessimismo ensaiado. Posso ser forte e insensível, posso ser fraco e derramado. Meu temperamento terá mais a ver com o morto do que comigo. Não irei combinar as meias com os sapatos e não lembrarei a camisa no dia seguinte.

Cansa-me enterros pela encenação. Quem é contido ao pé do túmulo não viveu com o morto. Inventou o morto. A saudade inventa. Cria afinidades e lembranças para ganhar importância de testemunha, para alardear uma cumplicidade única e inseparável.

Já tive amigos que falavam que redescobriram o pai ou a mãe. Mas não se descobre ninguém depois de morto, descobre-se o que não é mais, o que não será. Há gente que nunca vai admitir, mas se tranquiliza com o fim de um parente. Esperava com ardência, torcia, ruminava em segredo.

Na hora da reza, pressente um contentamento. Por detrás dos pêsames e das palavras poucas, corre um alívio. Ao lançar o punhado de terra, percebe que a vida recomeça com a partida do fardo. Festeja por dentro a distância. Agora está leve perante a ausência de futuras explicações. Está alegre e não confessa. Não suportava mais a convivência, porém nunca anunciou o fracasso dos laços.

Seria muito mais honesto se separar em vida do que pela morte, afastar-se do pai ou da mãe enquanto é tempo, por motivos claros e conscientes do que manter o ódio silencioso enferrujando os pregos do caixão. A morte não cura desavenças. A morte salva a aparência de quem fica. Homenageamos o finado para mostrar que somos um bom filho, um bom marido, um bom amigo.

Procuramos a reverência para não ferir nossa imagem. Completamos a maquiagem mortuária com nossas sombras. Preservamos um pudor incompreensível. Somente um serial killer é praguejado, e ainda com educação.

Não se ofende o morto de modo nenhum, nem que tenha nos maltratado até a exaustão. Guardamos um respeito ecumênico, não afirmando aquilo que no fundo pretendíamos: ele não prestava e foi tarde.

Não é por pena, não é por medo de assombração, é por oportunismo. Usamos a morte do outro para nos melhorar. É quase como roubar uma loja aproveitando a depredação.

Verei muita gente chorando no velório porque velório é para chorar. Não significa que sentem muito.

É tão desumano mentir na despedida.

O luto mesmo destrinchará os piores insultos, reclamará pavorosamente das mesquinharias, da ausência de gentileza e de compreensão nos últimos meses.

O abandonado mesmo é capaz de rasgar a camisa do morto, arrancar o sapato, cuspir no rosto, morder as mãos frias para arrancar os anéis e roer as unhas indefesas.

Brigará com toda razão e desrazão. Com palavrões fortes e pichações de banheiro. Andará como uma viatura pedindo passagem, atropelando qualquer um que surgir pela frente.

O amor finito traz o vexame, a confissão intragável; saía de perto.

A indelicadeza é carregada de verdades.

Fabrício Carpinejar

arte: John Piper

28.4.10

Direito de nascer livre

Mia volta à ativa com uma música incômoda de mensagem simples, mas “Born Free” já é uma das coisas mais importantes de 2010 só por causa desse vídeo dirigido pelo Romain Gavras (filho do Costa-Gavras), que já tinha dirigido o polêmico “Stress” para o Justice. Se liga:

Mas não há mera polêmica aqui. Sob um verniz quase didático de publicidade-choque Benetton há uma série de paralelos desagradáveis sobre o mundo que vivemos hoje em dia. Não é só o regime militar que maltrata a vida de gente por etnia nem uma Swat americana que faz às vezes de SS ao mesmo tempo que de exército israelense ou polícia de terceiro mundo, com crianças terroristas que poderiam ser palestinas, brasileiras ou irlandesas. É também uma tentativa de fazer a cultura pop voltar a ser crítica, política, militante - e desagradável. Em nove minutos Mia e Romain pulverizam a importância de “Telephone” de Lady Gaga, tornam todo o cinema político do século 21 obsoleto e destratam todo entretenimento cultural como coluna social.

Fonte: Trabalho Sujo

Talvez você não goste da música, ou ache o vídeo desagradável. Mas é inegável que já fez história. No primeiro dia de divulgação (27/04) foi retirado do ar pelo Youtube e recebeu mais de 500 mil acessos no Vimeo. A história do vídeo faz uma alegoria ao preconceito (no caso, os ruivos são o alvo) e revela um pouco da história da cantora cingalesa, que cresceu em meio a hostilidade racial e política.

Fissura



Paulo Brabo, em A Bacia das Almas.

24.4.10

Bom conselho

Surpresas urbanas

Silent sunset with trees

Silent sunset with trees - by Helena Pacitti

Cena 1: São 19 horas e um congestionamento monstruoso acontece em uma rodovia federal.Com as pistas todas paradas, apressadinhos vão pelo acostamento, exceto quando aparece algum carro enguiçado.

Trafego na pista de menor velocidade, o que não faz diferença alguma a essa hora. À direita,uma cena insólita: um carro enguiçado com o capô todo aberto e uns sacos plásticos mal ajeitados no porta-malas. Do lado de fora, os 3 ocupantes fazem um ‘lanchinho’ com biscoitos e refrigerantes, sentados no guard rail, enquanto aguardam socorro. A 10 metros da traseira, ao invés do triângulo de emergência para avisar do carro quebrado, postam-se dois manequins sem pernas, sem cabeças e sem braços; só os troncos, lado a lado.

Foi o improviso que fizeram. Dá certo. A 100 metros, ninguém ousa chegar perto daquela estranheza.

Decididamente, o brasileiro tem criatividade.

Cena 2: Caminhando na calçada de uma movimentada rua – paralela ao jardim municipal – noto, com a visão periférica, algo se mover acima da minha cabeça. Ergo os olhos e dou de cara com um rabicho bicolor que balança no fio elétrico entre os postes.

É um minúsculo miquinho preto que me acompanha com curiosidade. Assovio e ele move a cabecinha.Ando e ele anda. Paro e ele pára.

No lado oposto da rua reparo em outro miquinho, um pouco maior que o primeiro, parecendo manter a guarda do pequeno.Comentei mais tarde o fato com o Mario, que me explica: provavelmente os micos estavam morrendo de pena de mim -‘aquele bicho grande que só consegue andar com os pés no chão, sem nenhuma coordenação ou equilibrio.’

Cena 3: Estaciono o carro na rua, em local permitido, vou correndo a farmácia, pago com cartão, estou sem uma moeda. Volto rapidamente, que dia perfeito, nem flanelinha tem!

(“Flanelinha” é giria carioca para guardadores de carro que zanzam na rua, que invariavelmente constrangem o motorista, isso quando não o extorquem)

Engano meu. Lá na frente o flanelinha aparece, vem correndo de chinelos, afobado, com a mão já estendida. Além de eu não ter moeda nem troco, vou ter que dizer isso a ele, sabe-se lá se vai me agredir?Pensei isso porque ando assustada.

‘Calma,‘- digo a mim mesma – ‘ele é feito você’. Mas são tempos difíceis, onde se desconfia da própria sombra, e na cidade grande todo mundo já ganha um estereótipo negativo: ‘o flanelinha é mau, as motoristas são uma lástima, todos os mecânicos inventam serviço, os taxistas sempre te dão a volta.’

Bem, melhor ser eu mesma. Abro as janelas, sorrio como se fosse a um velho amigo e digo a verdade. Estou sem trocado e sem moedas. Posso ficar lhe devendo?

Ao contrário do que imagino, ele responde com um sorriso largo e, galante, me cumprimenta: “Não tem problema não, moça. Com esse seu sorriso já ganhei meu dia!”

Cena 4: Depois de muitos dias de intensa chuva o céu está completamente limpo, e ganha, ao pôr-do-sol, tons azuis espetaculares. Há um resto de luz rosada na paisagem, a noite vai engolindo o dia, vejo a silhueta escura de árvores enfileiradas no lusco-fusco, e aves grandes, como garças e gaivotas, sobrevoam um pequeno charco de praça.

Algumas estrelas já piscam, lá longe passa a linha do trem,vazia,quase não há barulho.

Registro a paisagem com a máquina fotográfica. Vão me perguntar de onde é essa cena paradisíaca, quem sabe uma fazenda ou um resort de férias. Vou responder, meio sem graça, que é a saída da refinaria de petróleo onde trabalho, região onde se localizam pelo menos 150 grandes empresas e indústrias do Grande Rio.

Pois quem diria. Em um lugar tão inóspito,a natureza ainda resiste e consegue, ao final de cada santo dia, apresentar um espetáculo de silêncio e paz.

Helena Beatriz Pacitti

Arte nas sombras

Alguns tiram fotos, outros fazem arte. Essa mostra interessante revela que o verdadeiro sentido de algo muitas vezes depende do ângulo que se olha. Kumi Yamashita é um artista japonês que cria efeitos visuais de iluminação e formas simples, como as imagens abaixo.





Fonte: Beautiful Decay

A arte está no olho de quem a vê.

Fardo dos dentes

Namoro mesmo começa quando mostramos os álbuns de fotografia da família. Antes disso é flerte ou amasso.

Experimenta-se uma operação frágil e delicada, desde retirar o pó das caixas até virar as folhas plastificadas com capricho de colecionador. Nosso passado é sempre um livro raro, requer uma longa pausa dos dedos.

Reprisei as cenas de menino e não encontrei nenhuma foto rindo dos seis aos nove anos. Meu rosto estava sério, compenetrado, quase ameaçando a câmera. Não olhava passarinho, muito menos fazia xis. Ué, que estranho, eu me tinha por uma criança alegre, caseira, alucinada por colo nas poses. Os ombros da mãe correspondiam às minhas pernas-de-pau. Seu vestido, uma lona colorida de circo.

- Nossa, como você era mal-humorado?, comentou a namorada.
- Eu?

Inspirava realmente ares sombrios, de um guri problemático, com ternura violenta, represada. Poderia constar naqueles fascículos escolares como um futuro psicopata.

Fiquei intrigado durante semanas, assobiando a dúvida entre as tarefas do trabalho. Assobiar é minha hipnose regressiva. Com a cauda melódica de uma canção, sou capaz de passar o meu nascimento e pousar no piano de Beethoven.

Não compreendia a extravagância entre o que me lembrava e aquelas imagens. Pasmo com o tanto que me iludi.

Ao levar o Vicente para escola, caíram finalmente seus dois últimos dentes de leite da frente. Ele estava agora banguela, com uma inocência comovente. Festejei:

- Que lindo, como é mimoso!

Ele fechou o rosto e pisou num silêncio adulto e fúnebre, sequer me encarou. E lembrei, lembrei que eu não ria nas fotografias pelas lacunas da dentição. Emudeci os lábios, selei como envelope secreto. Eu me achava desengonçado, patético.

Reconheci como é terrível para o filho ganhar elogio na queda dos dentes. Os pais pulando em torno, pedindo para que ele mostre, fofocando aos amigos, orgulhando-se da transformação, oferecendo as pedras brancas às formigas em troca de dinheiro.

É impossível quitar essa dívida. Ele não está se sentindo bonito, terá que enfrentar a escola, abrir a fome na merenda, suportar mais duas séries até que os permanentes ocupem seus espaços, disfarçar o desfalque nos flashs dos torneios da escola. Tempo de apreensão, de passar toda hora a língua na gengiva. Período confuso, em que reconhecemos uma ausência e velamos o fim iminente da infância.

Para ele, não era engraçado, mas dolorido.

Vou respeitá-lo. Darei uma gaita para que complete – por enquanto - sua boca com música.

Fabrício Carpinejar, na revista Crescer.
arte: Paul Klee

Arte na fita

A artista plástica Erika Iras Simmons fez sua arte misturando telas e fitas cassete e de vídeo de 8 e 16 mm. Um dos temas mais abordados é a de ícones da música e do cinema. Veja algumas de suas obras mais conhecidas. Aqueles que sabem o que é uma fita cassete dirão que as imagens abaixo são bastante conhecidas.

Bob Dylan
Robert Smith (The Cure)
John Lennon

Jimmy Hendrix
Bob Marley

Para ver todas as peças, visite o site da mostra Ghost in the Machine

Sermão em forma de música

A música cristã, há tempos, ultrapassou os hinários dominicais nas vozes de fiéis fervorosos. Agora, as canções feitas em honra de Jesus Cristo ganharam um contorno pop e passaram a frequentar as paradas de sucesso, dominando a indústria fonográfica com um poder só comparado ao da superpopular música sertaneja.

Sim, porque, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD),os dois segmentos são os mais rentáveis do mercado atual. Só para se ter uma ideia: a música religiosa, feita por católicos e evangélicos, movimenta R$ 1 bilhão por ano no Brasil e tem mais de 50 milhões de ouvintes estimados em todas as classe socais.

Por isso, a mensagem do Senhor tem surgido em diversos ritmos. Balada romântica, samba, forró, funk e até rock, como fazemos estilosos rapazes da banda paulista Rosa de Saron. Católicos da Renovação Carismática, eles podem perfeitamente se confundir com qualquer banda emo atual, como se ouve no recém-lançado álbum Horizonte Distante, o oitavo da carreira, já com 60 mil cópias vendidas.

Estes são apenas alguns dos estilos que recheiam o catálogo dos mais de 100 selos e gravadoras dedicados ao segmento, hoje, no Brasil. “O mercado musical só não despencou por causa da música cristã e do sertanejo. São eles que seguram tudo ao nosso redor”, avalia o judeu Líber Gadelha, presidente do selo LGK (distribuído pela Sony), que tem no elenco o padre Fábio de Melo.

XÔ PIRATARIA
“Nosso trabalho vai ao encontro de pessoas que necessitam da palavra de Deus. O bom é que isso não precisa mais ser feito num sermão de uma hora. Uma música de três minutos, feita com cuidado, pode resolver muito bem essa necessidade”, avalia o padre Juarez de Castro, que divulga atualmente o disco Luz Divina.

Com uma impensável visão pop, ele regravou Monte Castelo, da Legião Urbana; Tente Outra Vez, de Raul Seixas; e Ouvi Contar, de Sá, Rodrix & Guarabyra, além de Luz Divina, de Roberto Carlos. “Embora não sejam consideradas religiosas, essas músicas carregam mensagens de otimismo e amor”, justifica.

O sucesso do segmento é tão concreto que a multinacional Sony Music, por exemplo, acaba de anunciar um selo exclusivamente gospel no Brasil, reproduzindo seu padrão nos EUA. A Sony fechou também parceria com o reality show gospel Desafio da Música Gospel, transmitido pela Rede TV.

“Nosso foco atual são artistas de música gospel, que é feita pelos evangélicos, porque nossa ala católica está muito bem representada por padre Marcelo Rossi. Sabemos que a taxa de crescimento do segmento cristão é sete vezes maior que a taxa de natalidade brasileira”, diz Maurício Soares, diretor do segmento cristão da Sony.

FENÔMENO
Um dos fatores para ser tão rentável é que o segmento religioso é um dos menos pirateados da indústria. “Acho que há uma rejeição maior à pirataria nesse grupo porque eles sabem que estariam enganando o seu pastor ou o seu padre ser e corressem ao produto pirateado”, opina Leonardo Ganem, presidente da Som Livre, que detém um elenco misto, de católicos e evangélicos. Leia +.

Doris Miranda, no Correio da Bahia,

17.4.10

Robert Plant no morro Dona Marta



Led Zeppelin em versão samba. Uau! =)
dica do Rogério Moreira
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