7.2.07

Entregue a Jesus

"Está na hora do colírio, bebezinha da mamãe." Era assim, exalando amor materno, que na semana passada a paulista Cacilda Galante Ferreira, de 36 anos, se aproximava do berço aquecido em que dormia a filha Marcela de Jesus. A menina é a protagonista de uma história rara. Raríssima. Ela nasceu sem o córtex cerebral. Em casos como esse, os médicos dizem que metade dos bebês morre durante a gravidez. A outra metade sobrevive algumas horas ou poucos dias depois do parto.

Os 70 dias de Marcela, completados no dia 29 de janeiro, são surpreendentes. Ela nasceu com 2,5 quilos e 47 centímetros aos nove meses de gestação. Até a semana passada, tinha engordado 400 gramas e crescido 3 centímetros.

Pela força das circunstâncias, os dedos da agricultora Cacilda tiveram de se acostumar à suavidade. Habituaram-se a levantar cuidadosamente o capacete de oxigênio colocado em volta da cabeça do bebê na Santa Casa de Patrocínio Paulista, cidadezinha de 12 mil habitantes a 413 quilômetros de São Paulo. O capacete facilita o trabalho dos pulmões. Sem ele, Marcela não teria durado tanto. Nos primeiros dias, ela conseguia ficar até uma hora fora do equipamento. Na semana passada, o máximo eram dez minutos.

Durante a entrevista com Cacilda, Marcela agarrava com força o indicador de sua mão. Quando a mãe conseguia se desvencilhar, ajeitava a menina e aplicava-lhe o colírio lubrificante nos olhos. A cada gota, Marcela piscava. "Ela tem uma sensibilidade nos olhos!", diz Cacilda. Não é apenas nos olhos cegos que Marcela demonstrava sentir desconforto. Com a mãozinha, arrancou da boca a sonda que levava o leite até o estômago. Os médicos instalaram uma nova sonda. Desta vez, no nariz. Algumas outras reações: o incômodo por ficar muito tempo na mesma posição. O choro provocado pelas cólicas. O estremecimento, ao som do telefone.

Essas reações, a respiração, os batimentos cardíacos e o funcionamento dos órgãos internos só são possíveis por causa do tronco cerebral perfeito. Essa é a estrutura que liga a medula ao córtex cerebral. "O tronco cerebral é uma área nobre em termos de funcionalidade e está sendo capaz de manter as funções vitais de Marcela", disse Luiz Celso Vilanova, chefe do setor de Neurologia Infantil da Universidade Federal de São Paulo. "Mas o problema é letal em 100% dos casos."

Anencéfalos que têm o tronco cerebral completo costumam sobreviver por mais tempo. Mais cedo ou mais tarde, porém, o corpo em crescimento começa a exigir maior vascularização, os pulmões precisam de mais movimento respiratório e o tronco cerebral não consegue suprir tantas demandas. A criança morre por falência múltipla dos órgãos. Marcela sofreu uma parada cardíaca em dezembro. Foi reanimada com massagem.

O crânio de Marcela não chegou a se formar. Nem o assoalho ósseo que acomoda o globo ocular. Nasceu com os olhos projetados para fora do rosto e, no lugar da testa e da cabeça, com uma massa de tecido mole sem forma e sem função. O tronco cerebral se responsabilizou pelas reações automáticas: piscar, sugar, apertar objetos, reagir à dor. Mas um bebê sem cérebro não desenvolve emoções, sentimentos, pensamentos. Nem uma vida autônoma.

"Tenho esperança de levá-la para casa, mas ela já não é minha. Entreguei-a a Jesus", disse Cacilda. A agricultora soube que a filha era anencéfala por meio de uma ultra-sonografia realizada no quarto mês de gestação. O médico José Mauro Barcellos, que também é o prefeito da cidade, revelou o diagnóstico a Dionísio, marido de Cacilda, e pediu que ele desse a notícia. Dionísio reuniu a família para rezar o terço e só depois contou a Cacilda. Ela ficou triste. Mas também resignada. "Se Deus me escolheu, que seja feita a vontade dele", diz.

fonte: Época

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