6.4.08

Filosofia em série

A televisão já foi chamada de "máquina de fazer doido" e acusada de emburrecer o público. Para o filósofo britânico Mark Rowlands, ela é só mais um instrumento para entender o mundo das idéias. Autor de "Tudo o que sei aprendi com a TV" (Ediouro), esse professor da Universidade de Miami aplicou conceitos de pensadores como Platão e Schopenhauer a oito séries de TV. São elas: "Buffy, a caça-vampiros", "Família Soprano", "Sex and the city", "Friends", "24 horas", "Seinfeld", "Os Simpsons" e "Frasier". O resultado? Um divertido tratado sobre como assistir aos seus programas preferidos sem abdicar da inteligência. Confira na entrevista abaixo:

Leia trecho do livro

O GLOBO: Como surgiu a idéia do livro?

MARK ROWLANDS: Antes desse livro, eu tinha escrito outro sobre a filosofia nos filmes de ficção científica. Cheguei à conclusão de que filmes como esses seriam a melhor maneira de explicar conceitos complexos da filosofia para os meus alunos. A filosofia é difícil porque é abstrata, e se você conseguir torná-la concreta na forma de uma imagem, as coisas ficam bem mais fáceis. Quando passei a ver os programas de TV da mesma maneira, escrever o livro foi a conseqüência natural.

No livro, você trata de oito séries. Já assistia a todas elas ou teve que assistir como pesquisa?

ROWLANDS: Nem todas. "Sex and the City" normalmente não figuraria entre minhas opções (o monopólio da minha mulher sobre o controle remoto explica minha familiaridade com a série). Mas a maioria delas eu já assistia. Quando decidi escrever o livro, comprei todas as caixas de DVD que pude encontrar e as assisti em maratonas que podiam durar vários dias.

Qual foi o critério na escolha dos programas?

ROWLANDS: Eram séries de que eu gostava quando escrevi o livro. Outra coisa importante é que eles eram icônicos e se infiltraram na consciência popular de uma tal maneira, que até quem não os acompanhava sabia do que tratavam.

O que seus colegas filósofos acham dessa sua obsessão com a televisão?

ROWLANDS: Depende do filósofo. Alguns dos melhores que conheço são fanáticos por TV, até assistem mais do que eu. Não havia TV na época de Wittgenstein, mas ele adorava filmes B, especialmente de faroeste. Tenho certeza de que seria fã de TV se tivesse nascido 50 anos depois. Alguns filósofos, claro, odeiam.

Qual das oito séries incluídas no livro é sua favorita? E quanto às atuais?

ROWLANDS: É difícil escolher, mas se fosse obrigado teria que optar por "Buffy, a caça-vampiros". É um programa incrivelmente engraçado e Joss Wheedon, seu criador, é um gênio da comédia. Sua série seguinte, "Firefly", era ainda melhor. Quanto aos programas atuais, vejo "Lost", "Prision break", "The daily show" e "Two and a half men".

Quanto tempo por dia você gasta com a TV?

ROWLANDS: Nem tanto quanto você pode imaginar. Para começar, tenho um filho de nove meses que não me permite. Só consigo escapar de madrugada por uma ou duas horas por noite. Mas nunca fui de ver TV por ver. Só vejo aquilo de que gosto muito.

Nos primórdios, havia um único televisor por casa e as famílias se uniam para assistir. Hoje, ver TV virou uma experiência individual. O que isso muda na relação das pessoas com o veículo?

ROWLANDS: Ótima pergunta. Acho que existe uma tendência ao isolamento no mundo moderno. A prova disso é a forma como assistimos à TV, as horas que passamos online, nossa preferência pelo telefone celular em vez das conversas cara-a-cara, e outras coisas. Suspeito que a ascensão dos reality shows - que, por sinal, eu detesto - tem a ver com isso.

A TV é atacada por todos os lados. Dizem que ela afeta nosso julgamento, estimula a violência e banaliza o sexo. O quanto de verdade existe nessas críticas? E quanto de TV é demais?

ROWLANDS: Noventa e seis horas, quase sem intervalos, assistindo a todos os episódios de "Família Soprano" em DVD, provavelmente é demais. Foi o que eu fiz antes de escrever o capítulo sobre a série. Notei que fiquei um pouquinho mais agressivo nos dias subseqüentes. Mas há uma diferença entre isso e assistir à série uma vez por semana. Existem algumas evidências de que a TV pode afetar de modo danoso alguns indivíduos. Porém, não se sabe o que é causa, o que é efeito. Até onde sei, tudo indica que o tipo de indivíduo que a TV prejudica é o que já sofria com outros problemas anteriormente.

Você acha que a TV substituiu os livros como fonte de entretenimento e informação? Qual o papel de um livro como o seu hoje em dia?

ROWLANDS: Gostaria de saber a resposta. Meu livro foi escrito para pessoas que querem entender como muitas idéias - filosóficas ou não - se infiltraram na cultura popular. Será que isso poderia ter sido feito através de um programa de TV? Sim. Existe uma possibilidade de fazer uma versão televisiva do livro. Mas não estou dando muito crédito a isso.

Fonte: O Globo

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