25.7.09

Manipulação e domesticação de Deus


Dom Fernando Iório *

A religião mágica, supersticiosa, mercantilista e interesseira está procurando manipular Deus em favor de benefícios próprios, usando mecanismos pseudo-religiosos. É a procura de entender a fé como um seguro de vida, a todo risco. É um conceito avassalador da religião e de um cálculo mercantil da prática religiosa, por demais comercializada pela multiplicação de denominações religiosas que se espalham pelos quatro cantos das ruas.

Procedem quantos se esquecem de que a fé é um risco e uma resposta sem cálculo ao amor de Deus que em Cristo nos amou primeiro e sem medida. A fé não é evidência deslumbrante, mas obscura claridade que ilumina nosso titubeante caminhar.

Superstição e culto mágico são fruto de uma fé malformada que confina a religião e a imagem de Deus num estado primitivo. Consiste em querer aproveitar-se de Deus, colocando-o a serviço dos próprios interesses e segurança, em vez de procurar o seu serviço e o do próximo, em espírito e verdade. Intentar manipular a esfera do sagrado em proveito próprio em vez de colocar-se à vontade do Altíssimo é magia e idolatria refinadas.

Nas religiões primitivas de cunho mágico e supersticioso os devotos dos deuses ofereciam sacrifícios para aplacar sua ira ou lhes davam coisas para mantê-los propícios. Mas, em nada esse culto comprometia a vida pessoal, não convertendo o coração da criatura humana. Ainda hoje essa atitude se repete entre não Nas religiões primitivas de cunho mágico e supersticioso os devotos dos deuses ofereciam sacrifícios para aplacar sua ira ou lhes davam coisas para mantê-los propícios. Mas, em nada esse culto comprometia a vida pessoal, não convertendo o coração da criatura humana. Ainda hoje essa atitude se repete entre não poucos que se dizem cristãos. Infelizmente, o homem e o mundo atuais estão marcados pela descrença, inclusive, às vezes, do ateísmo militante e quase sempre do agnosticismo indiferente.

O grito “Deus está morto, passagem livre para o super-homem” que, ao descer da montanha, vinha apregoando o Zaratustra de Nietzsche, conjurou o surgimento dos ídolos que querem ocupar o altar do Deus destronado. Na peça do falso profeta armaram sua tenda de quinquilharias, o culto ao homem, o domínio político, o abuso do poder central ou dos grupos de pressão, a manipulação social, a exploração do semelhante, a violência, a alucinação do sexo, do álcool e das drogas e o deus consumismo que é um dragão de muitas cabeças e tentáculos.

Deve-se reconhecer que para muitos o verbete “deus” é tão genérico e vazio de conteúdo que se perde num difuso panteísmo. Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança; mas que adiantou, diz o famigerado Voltaire, se o homem lhe paga na mesma moeda: criando Deus à sua imagem e a seu desejo? Entretanto, a história revela que nós somos precisa projeção de Deus e não Deus criação nossa: Deus é o molde do homem e este O reflete, mas jamais O inventa.

(*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.

Fonte: GAZETA DE ALAGOAS

Como escreveu e cantou o Chico Cesar na canção PERTO DEMAIS DE DEUS: "tem gente incapaz de viver sem deus e o trata como um funcionário seu"...

Um comentário:

Trannin disse...

O brilhantismo e a clareza desse comentário do bispo Fernando Iório não trouxe novidade (pelo menos para o tipo de leitor deste blog). É, com certeza, indiscutível e bem vinda. A coerência e a sensatez desse bispo está muito além de muitas lideranças evangélicas que vivem em um condescendência acrítica com relação a isso ou, pior, praticando bruxaria evangélica. Mas... pergunto-me: como será que uma mente sensata, como a desse bispo, lida com as velhas contradições da própria igreja católica (que parecem se reforçar com o novo papa) as quais são de mais fácil identificação mesmo para os cristãos evangélicos acríticos e alienados? Fico curioso em saber como uma mente brilhante, como a desse bispo, lida com as contradições e absurdos do contexto religioso em que ele mesmo vive. Esse fato não é novo, é recorrente. Queria ter um idéia, uma teoria, que explicasse isso, pois esse homem não me parece um homem de má fé.

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