23.8.09

Convite à alma

Pois que cada homem é filósofo do seu tempo.
Nélida Piñon

Eu digo: calma, alma minha, calminha, você tem muito que aprender.
Zeca Baleiro

Hoje quero fazer um convite a minha alma. Convido-a a ser minha parceira no ofício da leveza. Deixar de ser uma alma queixosa e indolente. Uma alma que deixou de se aquietar com porção do dia e que nunca parece estar satisfeita.

Alma, você está faminta de quê, afinal? Você está sempre indócil pensando no “se”, nas preocupações que talvez jamais aconteçam, no amanhã que ainda não chegou, em um passado permeado de mágoas.

Quero convidá-la a ser minha parceira em viver o presente de forma plena, minuto a minuto. Porque só cada dia vencido nos habilita a viver o próximo.

Alma minha, o que você tem na sua bagagem que se tornou tão grande e pesado? Vamos fazer um balanço sincero do que existe nas malas e bolsas dessa viagem que juntas fazemos há tanto tempo. Por que não se desfazer de papéis velhos e notinhas acumuladas sem importância, já desbotados e ilegíveis, listas das dívidas a cobrar de gente que ficou lá atrás? Perdoe, alma minha. O peso excessivo da mochila faz com que você, minha pequena alma, ande encurvada e envelhecida. É hora de se tornar mais leve e flexivel.

Vamos combinar assim. Que tal viver a plenitude do presente, com recato, amor, coragem, ternura e compaixão? Quando ouvir, ouça – não pense nas respostas que tem de dar.Não tenha vergonha de dizer “não sei”. Não saber é próprio da nossa humanidade.

Quanto perder verdadeiramente alguém, sinta a dor. Quando chorar, chore – não diga a si mesma, alma minha, para parar enquanto as lágrimas não secarem de vez. Alguém disse que é mister chorar quando os fatos exijam lágrimas. Mesmo os nossos lutos precisam se esgotar, precisam encerrar o ciclo das fases da dor até a mais perfeita aquietação, como aquele constructo da psicologia: choque, negação, raiva, barganha, depressão, aceitação e esperança. Pular fases é mera ilusão: elas voltam, cedo ou tarde, para reclamarem seu espaço.

Alma, convido-a a deixar o medo. Não me constranja a renunciar ao privilégio da aventura de estar viva. A despeito dos perigos que nos ameaçam, o simples ato de beliscar a própria carne e de constatar como o corpo reage representa uma graça sempre renovada. Talvez seja por isso que um sentimento misto de vergonha e surpresa nos sobrevenha ao constatarmos que pessoas desprovidas daquilo que julgamos essencial consigam viver em plenitude. Você não precisa, minha alma, de arranjar desculpas para explicar o sorriso que permanece no rosto dos desprovidos. De alguma forma, eles aprenderam, bem antes de nós, que o sonhar é uma graça de proporções tão exageradas que é necessário atribuí-lo a Deus, empenhado em pessoa em amparar o homem, criatura e obra sua.

É isso, minha alma. Não aparente o que não é, não exiba o que não tem, não ostente um valor que desconhece.A partir de agora não desejo mais descuidar-me de você, alma pequena. Sejamos leves, e na leveza estará a nossa força. Eu a convido.

HBP, inverno de 2009 [via Timilique!]

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