4.8.09

Neopaganismo evangélico

Estava passeando pela TV quando dei com um culto da Igreja Mundial do Poder de Deus. Teria rapidamente mudado de canal se não tivesse acabado de ler o interessante livro de Ronaldo de Almeida, "A Igreja Universal e seus Demônios - Um Estudo Etnográfico" [ed. Terceiro Nome, 152 págs., R$ 28], que me abriu os olhos para o lado especificamente religioso dos movimentos pentecostais. Até então, via neles sobretudo superstição, ignorando o sentido transcendente dessas práticas religiosas.

No culto da TV, o pastor simplesmente anunciou que, dado o aumento das despesas da igreja, no próximo mês, o dízimo subia de 10% para 20%. Em seguida, começou a interpelar os crentes para ver quem iria doar R$ 1.000, R$ 500 e assim foi descendo até chegar a R$ 1.

Notável é que o dízimo não era pensado como doação, mas simplesmente como devolução: já que Deus neste mês dera-lhe tanto, cabia ao fiel devolver uma parte para que a igreja continuasse no seu trabalho mediador. Em suma, doar era uma questão de justiça entre o fiel e Deus.

Em vez de o salário ser considerado como retribuição ao trabalho, o é tão só como dádiva divina, troca fora do mercado, como se operasse numa sociedade sem classes. Isso marca uma diferença com os antigos movimentos protestantes, em particular o calvinismo, para os quais o trabalho é dever e a riqueza, manifestação benfazeja do bom cumprimento da norma moral.

Se o salário é dádiva, precisa ser recompensado. Não segundo a máxima franciscana "é dando que se recebe", pois não se processa como ato de amor pelo outro. No fundo vale o princípio: "Recebes porque doastes". E como esse investimento nem sempre dá bons resultados, parece-me natural que o crente mude de igreja, como nós procuramos um banco mais rentável para nossos investimentos.

O crente doa apostando na fidelidade de Deus. Os dísticos gravados nos carros, "Deus é fiel", não o confirmam? Mas Dele espera-se reciprocidade, graças à mediação da igreja, cada vez mais eficaz conforme se torna mais rica. Deus é pensado à imagem e semelhança da igreja, cujo capital lança uma ponte entre Ele e o fiador.

Anticalvinismo
Além de negar a tradicional concepção calvinista e protestante do trabalho, esse novo crente não mantém com a igreja e seus pares uma relação amorosa, não faz do amor o peso de sua existência.

Sua adesão não implica conversão, total transformação do sentido de seu ser; apenas assina um contrato integral que lhe traz paz de espírito e confiança no futuro. Em vez da conversão, mera negociação. Essa religião não parece se coadunar, então, com as necessidades de uma massa trabalhadora, cujos empregos são aleatórios e precários?

Outro momento importante do livro é a crítica da Igreja Universal ao candomblé, tomado como fonte do mal. Essa crítica não possui apenas dimensões política e econômica, assume função religiosa, pois dá sentido ao pecado praticado pelo crente. O pecado nasce porque o fiel se afasta de Deus e, aproximando-se de uma divindade afro-brasileira, foge do circuito da dádiva. Configura fraqueza pessoal, infidelidade a Deus e à igreja.

Nada mais tem a ver com a ideia judaico-cristã do pecado original. Não se resolve naquela mácula, naquela ofensa, que somente poderia ser lavada pela graça de Deus e pela morte de Jesus, mas sempre requerendo a anuência do pecador.

Se resulta de uma fraqueza, desaparece quando o crente se fortalece, graças ao trabalho de purificação exercido pelo sacerdote. O fiel fraquejou na sua fidelidade, cedeu ao Diabo cheio de artimanhas e precisa de um mediador que, em nome de Deus, combata o Demônio. O exorcismo é descarrego, batalha entre duas potências que termina com a vitória do bem e a purificação do fiel.

Paganismo
Compreende-se, então, a função social do combate ao candomblé: traduz um antigo ritual cristão numa linguagem pagã. Os pastores dão pouca importância ao conhecimento das Escrituras, servem-se delas como relicário de exemplos. Importa-lhes mostrar que o Diabo, embora tenha sido criado por Deus, depois de sua queda se levanta como potência contra Deus e, para cumprir essa missão, trata de fazer o mal aos seres humanos.

O mal nasce do mal, ao contrário do ensinamento judeu-cristão que o localiza nas fissuras do livre-arbítrio. Adão e Eva são expulsos do Paraíso porque comeram o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e assim se tornam pecadores, porque agora são capazes de discriminar os termos dessa bipolaridade moral.

Essa teologia pentecostal se aproxima, então, do maniqueísmo. Como sabemos, o sacerdote persa Mani (também conhecido por Maniqueu), ativo no século 3º, pregava a existência de duas divindades igualmente poderosas, a benigna e a maligna. Isso porque o mal somente poderia ter origem no mal. A nova teologia pentecostal empresta o mesmo valor aos dois princípios e, assim, ressuscita a heresia maniqueísta, misturando o cristianismo com a teologia pagã.

José Arthur Giannotti, na Folha de S.Paulo.

11 comentários:

Suênio Alves disse...

Caramba...o pessoal da Folha de São Paulo estão escrevendo melhor que muito crente sobre Teologia. dahora!

André Egg disse...

Maniqueísmo era heresia?

Agostinho foi maniqueu, e tornou vários de seus postulados como pedra fundamental da ortodoxia cristã.

Por exemplo, a noção do pecado original, que Agostinho ligava ao ato sexual (carne má x espírito bom).

A própria idéia de que o herege tem que se submetido ou eliminado, por representar o mal. Só tornou-se política eclesiástica efetiva a partir de Agostinho, e da consumação do Estado romano como garantidor da autoridade da hierarquia.

Olhando por outro lado, pode-se dizer que os pentecostais são o calvinismo levado às últimas conseqüências, especialmente na questão do sucesso material como manifestação da benção divina (predestinação).

Thiago disse...

Agostinho foi maniqueu, mas largou totalmente e condenou o maniqueísmo como Heresia em muitos dos seus escritos. Pentecostalismo é Calvinismo levado às últimas consequências???
Depois quando chamam crente de burro fica difícil se defender diante de declarações como essas.. O pentecostalismo é ascético e a doutrinas pentecostal é totalmente contrária à teologia da prosperidade (eu não sou pentecostal, mas conheço muito bem o movimento pentecostal). O que o autor do artigo condenou foi o NEOPENTECOSTALISMO, só que ele não conhece o movimento que ele analisou, então nomeou de forma errada e escreveu muitos erros também, mesmo tendo acertado em tantas outras coisas..

Calvinismo não tem nada com a Teologia da prosperidade!!!

Por favor, não poste besteiras desinformadas concordando com aspectos desinformados de opiniões de quem não tem nada com o meio evangélico..

Armando Marcos disse...

Neo Pentecostalismo é a caricatura viva de Max Weber descreveu erroneamente a meu ver em "a etica protestamte e o Espirito do Capitalismo" aplicando aos calvinistas reformados o que pode ser aplicado a eles
Armando Marcos

Alex Fajardo disse...

Armando, vc leu o livro de Max Weber ? A tese dele é perfeitamente enquadrada dentro do calvinismo

Eliézer disse...

O texto parece um misto de Caio Fábio "light" quanto às argumentações e a um Ed René ou Ricardo Gondim na exposição, obviamente, relevado o fato de que, ao que tudo indica, não ser o autor alguém do gueto evangélico.

O ponto crucial é o que considero a precisão dele em citar que no meio "goshxxpélll" a única mediadora entre a divindade e os homens é a igreja, por isso cada igreja prega um deus diferente, interpretando a bíblia a seu bel-prazer a fim de convencer (e não converter) o ser de sua postura mais "bíblica".

O resultado é esse: a igreja vira um fim em si mesma, arbitrando em aumentar o dízimo de 10 para 20 porcento. Já que usam a escritura para lastrear suas concepções espirituais, porque não aumentar o dízimo para 30%? 10% para o Pai; 10% para o filho e 10% para o Espírito Santo? Ops... I did it again... não canso de dar boas idéias para aumentar a arrecadação... vou cobrar direitos autorais!

André Egg disse...

O Thiago ficou ofendidinho aí em cima?

Pode criticar minhas idéias, só não diga que desinformadas ou besteiras.

Agostinho não largou totalmente o maniqueísmo. Foi profundamente influenciado por ele, especialmente as idéias de oposição de um mal absoluto (Deus) a um bem absoluto (Diabo), aspectos que o autor abordou no texto. A mesma oposição foi aplicada ao par Ortodoxia/Heresia.

Ao contrário do Gianotti, eu sou do "meio evangélico", o que não significa que eu concordo com as doutrinas.

O calvinismo foi o primeiro sistema teológico a associar sucesso financeiro com benção espiritual. O chamado neo-pentecostalismo só tirou o detalhe do trabalho e da poupança nesta história.

Fazendo um esquema grosseiro: calvinismo - pietismo - avivamentos - pentecostalismo - neo-pentescostalismo. O neopentecostalismo é sim um sub-ramo do calvinismo.

Seu Jorge disse...

Peraí... o dízimo subiu de 10% pra 20%? Então, em vez de dízimo, a contribuição vai ter que mudar de nome: agora é o "quinto". É a reapresentação da Inconfidência Mineira.
Daqui a pouco vai ter 'derrama', conspiração, traidor, Tiradentes e tudo mais!

Anônimo disse...

adorei!
"O mal nasce do mal, ao contrário do ensinamento judeu-cristão que o localiza nas fissuras do livre-arbítrio."

esse livre arbitrio eh foooooooooogo
o verdadeiro fooooooooogo

Alexandre disse...

Excepcional o texto!!!!

Nanda disse...

Jesus disse que se nós (que nos consideramos seus seguidores)nos calássemos, as pedras gritariam. Esse texto é um exemplo e cumprimento dessa profecia. Estão adulterando o evangélho e adoecendo as pessoas em nome de Deus.Apesar disto, os poucos que lúcidos, amantes de Deus, conhecedores da Verdade tem se calado em nome da Ética Cristã ou simplesmente para evitar o confronto. Atitude que os torna coniventes.Daí, vem um jornalista da Folha de São Paulo e inteligentemente expõe toda a verdade, que muitos Cristãos (principalmente os neopentencostais) se recusam a ver. São cegos guiados por outros cegos...e pior, muitos simpelsmente não querem ser curados.CRISTÃOS, ESTUDEM A BÍBLIA E OREM PARA QUE TENHAM DISCERNIMENTO!

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