20.9.09

Ex-presidente Carter deixa Convenção Batista

"Discriminação e abuso erroneamente apoiados por doutrina estão danificando a sociedade", argumenta o ex-presidente Americano.

Jimmy Carter

The Observer, Domingo, 12 de Julho de 2009


“Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. “ (Artigo II, Declaração Universal dos Direitos Humanos)

“Desse modo não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus.” Gálatas 3.28

Eu tenho sido um Cristão praticante toda a minha vida e um diácono e um professor da Bíblia por muitos anos. Minha fé é uma fonte de força e conforto para mim, assim como crenças religiosas são para centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Então minha decisão de cortar meus laços com a Convenção Batista do Sul [dos Estados Unidos] depois de seis décadas foi dolorosa e difícil. Foi, contudo, uma decisão inevitável, quando os líderes da convenção, citando alguns poucos versos bíblicos selecionados cuidadosamente e reivindicando que Eva foi criada ocupando segundo lugar depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, mandaram que mulheres sejam “subservientes” a seus maridos e proibidas de servir como diáconas, pastoras ou capelães no serviço militar. Isto estava em conflito com minha crença – confirmada nas escrituras sagradas – de que nós todos somos iguais aos olhos de Deus.

Esta visão de que mulheres são de alguma forma inferiores aos homens não está restrita a uma religião ou crença. Está muito difundida. Mulheres são impedidas de exercer um papel total e igual em muitas fés.

Tragicamente, sua influência não pára nas paredes das igrejas, mesquitas, sinagogas ou templos. Esta discriminação, atribuída a uma Autoridade Suprema injustificadamente, proveu uma razão ou desculpa para a depravação dos direitos igualitários das mulheres ao redor do mundo por séculos. As interpretações masculinas de textos religiosos e a forma com que elas interagem e reforçam práticas tradicionais justificam alguns dos exemplos mais patentes, persistentes, flagrantes e danosos de abusos de direitos humanos.

Mais repugnante, a crença de que mulheres devem ser subjugadas aos desejos de homens escusa a escravidão, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionais que omitem estupro como crime. Mas também custa para muitos milhões de meninas e mulheres o controle de seus próprios corpos e vidas, e continua a negar-lhes acesso justo a educação, saúde, emprego e influência dentro de suas próprias comunidades.

O impacto dessas crenças religiosas toca todos aspectos de nossas vidas. Elas ajudam a explicar porque em vários países meninos são educados antes de meninas; porque dizem às meninas quando e com quem elas devem casar; e porque muitas se deparam diante de riscos enormes e inaceitáveis na gravidez e parto porque suas necessidades básicas de saúde não são supridas.

Em algumas nações islâmicas, mulheres são restritas em seus movimentos, punidas por permitir a exposição de um braço ou tornozelo, privadas de educação, proibidas de dirigir um carro ou competir com homens para um trabalho. Se uma mulher for estuprada, ela é frequentemente punida o mais severamente possível como a parte culpada no crime.

O mesmo pensamento discriminatório está por trás da constante distância entre gêneros em salários e do motivo pelo qual ainda há tão poucas mulheres políticas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Esse preconceito está profundamente enraizado nas nossas histórias, mas seu impacto é sentido todos os dias. Não são somente mulheres e meninas que sofrem. Ele danifica todos nós. A evidência mostra que investir em mulheres e meninas produz benefícios substanciais para todos na sociedade. Uma mulher educadas tem crianças mais saudáveis. Há mais chance de ela mandá-los para a escola. Ela ganha mais e investe o que ganha na sua família.

É simplesmente uma derrota a si mesma qualquer comunidade discriminar contra metade da sua população. Nós precisamos mudar essas atitudes e práticas que servem a si próprias e antiquadas – como estamos vendo no Irã onde mulheres estão na linha de frente da batalha pela democracia e liberdade.

Eu entendo, contudo, porque muitos líderes políticos podem relutar em pisar nesse campo minado. Religião e tradição são áreas poderosas e sensíveis para desafiar.

Mas meus colegas Anciãos e eu, que viemos de várias fés e históricos, não precisamos mais nos preocuparmos com ganhar votos ou evitar controvérsias – e nós estamos profundamente comprometidos em desafiar a injustiça aonde quer que a vejamos.

Os Anciãos decidiram chamar a atenção em particular para a responsabilidade dos líderes religiosos e tradicionais de garantir igualdade e direitos humanos. Recentemente publicamos uma declaração que afirma: “A justificativa da discriminação contra mulheres e meninas baseada em religião ou tradição, como se fosse prescrita por uma Autoridade Superior, é inaceitável.”

Nós estamos conclamando todos líderes a desafiar e a mudar os ensinos e práticas danosos, não importando quão entranhados, os quais justificam a discriminação contra mulheres. Nós pedimos, em particular, que líderes de todas as religiões tenham a coragem de reconhecer e enfatizar as mensagens positivas de dignidade e igualdade que todas as grandes fés do mundo compartilham.

Embora não tenha estudo em religião ou teologia, eu entendo que os versos cuidadosamente selecionados encontrados nas escrituras sagradas para justificar a superioridade dos homens se devem mais ao tempo e ao lugar – e à determinação de líderes masculinos que mantêm sua influência – do que a verdades eternas. Trechos bíblicos similares poderiam ser achados para apoiar a escravatura e o consentimento tímido a ditadores opressivos.

Ao mesmo tempo, estou também familiarizado com as descrições vívidas nas mesmas escrituras nas quais mulheres são reverenciadas como líderes proeminentes. Durante os anos da igreja Cristã primitiva as mulheres serviram como diaconisas, pastoras, bispas, apóstolas, professoras e profetisas. Foi só no quarto século que os líderes Cristãos dominantes, todos homens, torceram e distorceram as escrituras sagradas para perpetuar seus cargos superiores dentro da hierarquia religiosa.

Eu sei, também, que Billy Graham, um dos Cristãos mais amplamente respeitados e reverenciados durante meu tempo, não entendeu porque mulheres foram proibidas de serem pastoras e pregadoras. Ele disse: “Mulheres pregam ao redor do mundo inteiro. Não me incomoda, de acordo com meus estudos das escrituras.”

A verdade é que os líderes religiosos masculinos tiveram – e ainda têm – uma opção de interpretar os ensinos sagrados ou para exaltar ou para subjugar mulheres. Eles escolheram, para seus próprios fins egoístas, predominantemente esta.

Sua escolha contínua fornece o fundamento ou a justificativa para grande parte da perseguição dominante e do abuso de mulheres ao redor do mundo. Isto está em violação clara não somente da Declaração Universal de Direitos Humanos mas também dos ensinos de Jesus Cristo, do Apóstolo Paulo, de Moisés e dos profetas, de Maomé, e dos fundadores de outras grandes religiões – todos os quais conclamaram o tratamento próprio e igualitário de todas as crianças de Deus. Chegou a hora de termos a coragem de desafiar essas visões.

Jimmy Carter foi presidente dos Estados Unidos de 1977 a 1981. Os Anciãos (Elders) são um grupo independente de líderes globais eminentes, agrupados por Nelson Mandela, que oferecem suas influências e experiências para apoiar a construção da paz, ajudar a lidar com as principais causas de sofrimento humano e a promover interesses comuns da humanidade.
"

Fonte: The Observer, Inglaterra

Tradução: Gustavo K-fé Frederico (exclusiva para o PavaBlog)

12 comentários:

Hermes C. Fernandes disse...

Este texto é muito bom. Mas onde se lê "Diáconos", deveria ser "anciãos". É uma referência a um grupo formado por 12 pessoas de várias culturas do mundo, entre ela, o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, e o Mandela, ex-presidente da África do Sul. Eles formam os Elders, cujo objetivo é promover a paz e a justiça entre os povos. Vale a pena ler mais sobre o assunto. É bem interessante. Provavelmente, quem traduziu achou que se tratava de diáconos, uma vez que Carter serviu como tal por muitos anos. E a palavra 'elder' é usada em algumas igrejas para referir-se a presbítero, não a diácono.
Valeu Pava! E parabéns pelo resultado entre os blogs.

Alzira Sterque disse...

Está tudo muito bom!
Só me admira o fato de ele ter realizado tal comentário somente agora, em que ele não mais cogita, nem precisa, de votos para se reeleger! Como cristão de berço, duvido que Carter não tenha notado tal discriminação, meramente política, dentro das igrejas há muito já. Pareceu-me confissão de leito de morte.
Mas gostei da sua Carta de Repúdio ao Status Quo.
Ainda bem que temos convicção de sermos cristãos, independentes de laços eclesiásticos formalizados por homens.
Um abs

Gustavo K-fé disse...

Hermes, obrigado pelo comentário. Eu acabei trocando no texto "Diáconos" por "Anciãos". Não sabia que o nome próprio estava divulgado em Português. Pensei que na prática mais comum das igrejas brasileiras o diaconato se assemelharia mais com o papel de "elders" em igrejas americanas. Em todo o caso havendo o nome próprio a correção é realmente apropriada.

Gustavo K-fé

CHICCO SAL disse...

Não, não se trata de uma daquelas declarações ao leito da morte, não!

O ex-presidente vem há muito tempo lutando pela não discriminação e até mesmo chegou a organizar eventos nos últimos anos no intento de colocar na mesa da discussão denominacional batista o tema e promover um novo pacto para o futuro. Ele também vem há bastante tempo promovendo ações em favor da construção de casas para os menos favorecidos ao redor do mundo além de ser sempre o primeiro nome lembrado pela própria ONU para acompanhar processos de eleição democráticas em países em transição. (Para não falar que ele também foi laureado com o prêmio Nobel...)

Se tem alguém que não tem se furtado de colocar a canela no jogo e sustentar sua opinião mesmo em ambientes e situações altamente desfavoráveis tem sido ele.

Anônimo disse...

Chicco Sal

Obrigada pela informação, não sabia.
Um abs

Pastor Afonso disse...

Não acredito que alguem precise de um "título" para fazer a obra de Deus. Acredito que tanto homem quanto mulher tem seu ministério designado por Deus na Igreja. No entanto, uma instituição pode muito bem optar em seguir uma linha de doutrina e organização. O diácono e ex-Presid Carter, nos revela que amargura mofada a muito tempo é muito piór que o problema em sí que a gerou. “Nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados” (Hebreus 12:15.

Alzira Sterque disse...

Chicco Sal

Obrigada pela informação. Com vc e os outros excelentes comentaristas só temos a aprender neste espaço. Deus te abençoe.

DIOGO HENRIQUE DE SÁ disse...

Na verdade existe um grande problema na alegação de Carter. Precisamos entender que a Igreja não é um local para ascensão social, e acreditar que uma mulher é mais valorizada ou menos por ocupar um cargo eclesiático, é distorção da Verdade Biblica. E é exatemente esta deformidade que tem gerado tantos problemas na Igreja hoje, é por amor ao poder que líderes (homens e mulheres), que vendo na estrutura religiosa uma forma de auto promoção, dividiram a fidelidade de cristo com sigo mesmo, e tentado usurpar a Glória que sómente a Deus é Devida. Não estou defendendo os líderes religiosos norte-americanos, mas quero somente pensar com um pouco mais de cuidado as premissas de Carter. Como ele mesmo afirmou que nunca fez um curso teológico podemos constatar que se trata de um leigo, eu sei que um curso Teológico não é tudo na vida, mas já dá para entender por que ele analisa a coisa toda de forma tão superficial, é comum principalmente no Brasil pensarmos que pelo fato de alguém ser famoso sabe mais do que outros (aqui é só um artista se "converter" hoje que amanhã já está sobre um palanque pregando), Jimmy Carter é um político e fala como um político, embora não concorra mais a cargo eletivo nenhum, continuara sendo um politico, pode se ver pelo grupo que faz parte, os anciãos - como se auto denominam - é um grupo de homens políticos que pouco ou nada sabem sobre a Bíblia. Precisamos mudar esta forma de enxergar a Igreja. Mulheres e homens foram chamados para servir a Deus, e de várias formas possiveis ambos deverão fazer o que foram comissionados a fazer, seja evangelizando, seja dirigindo uma Igreja Local, seja ajudando a diminuir as desigualdades sociais... E não é um Título que fará de alguem mais importante ou seu trabalho mais ou menos nobre. Só a busca por títulos evidencia uma falha na identidade do Cristão.

Anônimo disse...

"No entanto, uma instituição pode muito bem optar em seguir uma linha de doutrina e organização." Palavras de Pr.
Tinha que ser.

Eu completo dizendo que nessa linha de doutrina e organização, a instituição pode agir como bem entender, além de inferiorizar a mulher,pode também estimular o racismo, como acontece muito nessas Batistas sulistas dos EUA.

Diógenes SkauSURF disse...

Vou comentar um absurdo que li, embora rapidamente.

Jimi Carter não entender de fé, de bíblia, por conta de não ter feito nenhum curso teológico?

Foi realmente isso que eu entendi?

Ora faça-me o favor se foi isso mesmo! Quem entende entao? Marcos Feliciano e seu título de "Doutor em Divindade" ou o Apóstolo Waldomiro?

Quanta pretensão!

Diógenes SkauSURF disse...

E digo mais além... por que esse "pastor afonso", que faz questão de se dizer pastor (imagina se todo mundo se apresentasse assim: "oi, sou o encanador José, sou o técnico em informática Diógenes, sou a faxineira Romélia" não abandona, pois, esse carogo que ostenta para fazer a obra de Deus?

Cada vez mais me sinto enojado desses almofadinhas gospel.

pr Osmar disse...

Sou pastor da Convenção Batista Brasileira que durante muito tempo foi "afilhada" da Convenção Batista do Sul dos EUA. (isto está mudando com uma certa independência financeira que vivemos hoje). Mas como precisamos de pessoas como estas que se levantam com opiniões, mesmo que incômodas, necessárias para que a igreja seja mais parecida com o Reino.

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