10.11.09

Sobre "Caetano e os analfabetos" e a realidade paralela

Miguel do Rosário, autor de Caetano e os analfabetos, realmente conseguiu uma proeza com seu texto: descontextualizando o que Caetano disse (seja para o bem ou para o mal do próprio Caetano), Miguel esboçou os contornos de uma nova estética e, a partir dela, de uma nova ética para a humanidade (e, vejam vocês, aqui já começa o milagre: a criação de uma ética a partir de uma estética!)! Ou seja, graças ao seu texto, o ocidente como um todo, desde tempos imemoriais, pode agora "virar a página", esquecer o que o trouxe até aqui, e fazer "tudo novo".

Agora, o bacana é ser:
1. "Do povo" - seja lá que raios isso queira dizer. Mas afinal, existe uma aristocracia, uma nobreza no Brasil a qual se oponha ao "povo"?; quem não é "do povo" num país onde não há monarca?;
2. Pouco ou nada instruído, afinal, as "grandes figuras" inspiradoras de toda a grande produção cultural mundial e atemporal são pessoas assim, com "pobremas" de "iducação" - o que não passa de uma grande mentira, pois todas as personagens dignas de louvor, tanto na ficção quanto na realidade, assim o são em decorrência de seus méritos, de seu caráter, de seus feitos, não exclusivamente de seu estrito saber ou não-saber;
3. Observador da "experiência" e não da teoria - como se para observar a "experiência" não houvesse uma imensa quantidade de teoria, implícita ou explícita, consciente ou inconsciente, captando, retendo e interpretando cada fato, cada "experiência"; como se todos fôssemos ocos, bestas feras diante de um mundo desconhecido por completo, ao qual chegamos com zero capacidade para coisa alguma, passando da animalidade para a humanidade assim, por mera "observação da realidade";
4. E sobretudo, o bacana é alcançar o poder, o sucesso, a crista da onda, seja lá como for, sendo esta a marca definitiva, a evidência final e irrefutável da nobreza de caráter, desenvoltura psíquica e pau duro!

Valha-me Deus! Nunca vi tanta bobagem junta! Observem os seguintes trechos:

"Afinal, há os que escrevem, há os que lêem, e há os que inspiram livros. São os líderes políticos, os guerreiros, revolucionários, chefes sindicais, bandoleiros famosos."
A associação entre políticos e bandoleiros famosos será mera coincidência ou a não tão sutil apologia de algo inaceitável como a combinação entre o político e o salafrário, mentiroso e ladrão? A quem interessa que nos conformemos com uma tal associação?

"Tantos historiadores já escreveram sobre isso, sobre a auto-censura a que o homem civilizado é sujeito, causa de tantas neuras e debilidades psíquicas! Afinal, qual o objetivo do ser humano? É ser um indivíduo com algumas leituras, ou mesmo um gênio da poesia, como D'Annunzio, mas que defende o fascismo? É ser um homem culto, porém sem graça, sem coragem, e broxa?
É muito difícil ser um homem inteiro, e conciliar o desenvolvimento pleno de todas as nossas faculdades físicas e psicológicas com uma participação criativa na sociedade."
Como assim, Miguel? Já que citaste, em outros trechos do teu texto, Homero e Platão, eu cito Sócrates, mestre de Platão, o mais central filósofo da Antiguidade e condecorado militar defensor de Atenas. Como explicá-lo, Miguel? Cito também Aristóteles, que além de filósofo e biólogo, foi, entre outras coisas, tutor de Alexandre, o Grande, o qual não carece de maiores explicitações dada sua fama atemporal de conquistador dos mais diferentes povos. Eles não eram homens desenvolvidos física e psiquicamente, Miguel? E não tinham, além disso, decisiva participação na sociedade?

É claro que ao Miguel só restou opção de abrir mão do seu pleno desenvolvimento psíquico em prol da aquisição da coragem necessária para se tornar um comunista! Bravo! Isso comprova que é realmente preciso, para se tornar um esquerdista:
1. Ou ser um imaturo e mal-informado;
2. Ou, além disso, ser também mal-intencionado para, usando um discurso hipócrita em favor do "povo", da "criatividade" e da "virilidade" defender a ideologia que mais intensamente baniu a liberdade e que mais assassinou civis em toda a história da humanidade, a exemplo da antiga URSS, da China, da Coreia do Norte e de Cuba.

Miguel esforça-se por criar uma realidade paralela, um mundo que não existe, dividido entre os heróis não-instruídos, valorosos, criativos e com ereções eternas de um lado e, do outro, os vilões letrados, fascistas, entediantes e brochas. E quem não desejaria ficar ao lado dos primeiros, caso isso fosse mesmo assim? Na realidade paralela de Miguel todo o pobre é uma vítima e um herói, não importa o que faça: se trabalhe de sol a sol ou roube de sol a sol, se fale a verdade ou minta, se seja honesto ou viva de "jeitinho". Nele, todo o rico ou diplomado é um algoz e um bandido, não importa o que faça: se trabalhe e estude de sol a sol ou sonegue e cole, se trate com respeito e decência seus funcionários ou os explore e humilhe, se trabalhe três meses por ano para manter o Estado através de seus impostos ou nada declare e a todos engane.

Que não se engane o leitor: uma realidade assim só traz vantagem àquele que a proclama e luta por sua instauração, pois nada melhor do que dominar um povo que se vê orgulhoso e busca mesmo por seu despreparo, por sua dormência, por sua inaptidão, por sua indiferença. Reinar sobre um povo assim é dominar uma boiada, um rebanho, extraindo dele suas crias, seu leite, seu couro, sua carne e suas entranhas enquanto os próprios bichos se sentem lisonjeados com tamanho privilégio.

Sabe, Miguel, só me resta lamentar por seus problemas cognitivos, morais, estéticos e sexuais.
Ah, e pode me chamar de fascista, direitista ou o que for. Faz mesmo parte da "argumentação" comunista o uso abundante de clichês.

Camila Hochmüller

19 comentários:

O Jornalista de Bage disse...

Ótimo texto, expõe as falhas de argumentação do "Caetano e analfabetos". É incrível como muita gente so consegue pensar na base de guerra de classes, elite x proletariado, essa coisarada toda. Não sei ao certo se toda a ideologia embrutece, mas essa inventada por Marx tem uma capacidade incrível de deixar as pessoas míopes. O pensamento dominante parece ser: se a realidade não se revela como na teoria, reformula-se a realidade oras!
Assim Cuba se transforma num paraíso, a venezuela numa democracia exemplar e o comunismo numa ideologia de paz e Pancho vila se transforma num exemplo de sabedoria (o que ele não é, ele não passa de mais uma figura patética que complementa a outra figura patética do Don, nada de luta de classes).
Bom trabalho continue sempre lúcida!

Cerestino disse...

"Mas afinal, existe uma aristocracia, uma nobreza no Brasil a qual se oponha ao 'povo'?"

"'pobremas' de 'iducação'"

- Não vi apelações desse tipo no texto de Miguel do Rosário.

"todas as personagens dignas de louvor, tanto na ficção quanto na realidade, assim o são em decorrência de seus méritos, de seu caráter, de seus feitos, não exclusivamente de seu estrito saber ou não-saber"

- Você tá concordando ou discordando do autor?

"como se todos fôssemos ocos, bestas feras diante de um mundo desconhecido por completo"

- Depois de duas Guerras mundiais, fome, do Capitalismo como sistema quase unânime... vc realmente tem toda essa fé na humanidade?

O lance dos bandoleiros foi realmente um ato falho! =P

"Alexandre, o Grande, o qual não carece de maiores explicitações dada sua fama atemporal de conquistador dos mais diferentes povos."

-Você quer dizer "devastador dos mais diferentes povos" né? E aí Camila? Associar líderes, políticos a genocidas? Oh! =O que feio, Camila!

"E não tinham, além disso, decisiva participação na sociedade?"

-Com certeza, principalmente nas sociedades que dizimaram. Foi decisivo: antes deles: vida, depois: morte. Valha-os Deus!

"defender a ideologia que mais intensamente baniu a liberdade e que mais assassinou civis em toda a história da humanidade, a exemplo da antiga URSS, da China, da Coreia do Norte e de Cuba."

-Tá brincando né? Não entra na contagem, além dos dizimados pelas "direitas" pelo citado Alexandre; todos aqueles trabalhadores, homens, mulheres e crianças que trabalhavam nas fábricas inglesas até morrer, literalmente? E os povos da África e Ásia que o imperialismo até hoje faz deles os marginalizados do mundo? Você está brincando né? Quem é imaturo e mal-informado mesmo?

"Miguel esforça-se por criar uma realidade paralela, um mundo que não existe, dividido entre os heróis não-instruídos, valorosos, criativos e com ereções eternas de um lado e, do outro, os vilões letrados, fascistas, entediantes e brochas."

-Menina, duas coisas: uma realidade paralela, se é no sentido de realidade totalmente diferente da atual, é, também meu maior desejo. "lá vem o príncipe desse mundo, ele nada tem em mim.". E outra, se vc não curte uma ereção........ foda-se!

"Que não se engane o leitor: uma realidade assim só traz vantagem àquele que a proclama e luta por sua instauração, pois nada melhor do que dominar um povo que se vê orgulhoso e busca mesmo por seu despreparo, por sua dormência, por sua inaptidão, por sua indiferença."

-Que não se engane a autora: se vivermos felizes com o mundo como ele está, ele continuará como está. Se fizermos as mesmas coisas, teremos sempre os mesmos resultados. Pode ser que dê errado, mas nossa tarefa é tentar. "Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não me enganam não, você diz que depois deles não apareceu mais ninguém. Você pode até dizer que eu to por fora ou então que eu to inventando, mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem"

Sale salve!

Camila disse...

Cerestino, vc simplesmente não entendeu o q eu escrevi.
A falha deve ter sido minha, em não explicar minuciosamente detalhe por detalhe de cada tim-tim.
Lamento.

Daniel disse...

Gostei do texto, Camila! Right "in your face", como sempre...

Não vou entrar no mérito da argumentação, mas CERTAMENTE o Sr. Cerestino não entendeu NADA do que tu escreveu... Que pena!

"Tantos historiadores já escreveram sobre isso, sobre a auto-censura a que o homem civilizado é sujeito, causa de tantas neuras e debilidades psíquicas!"

Meu Deus! Nós (brasileiros) corremos de perto da censura dos milicos e passamos "batido" pelo bom-senso, deixamo-lo pra trás e fomos parar direto no ouro lado: essa "turma" acha que liberdade é sinônimo de "qualquer coisa vale"?

"Neuras e debilidades psíquicas"?

Pergunta lá, pros alemães berlinenses que viveram do lado comunista do muro até 20 anos atrás, o que eles acharam... Como ficou a "psique" deles quando descobriram (depois que invadiram o prédio da Stasi) que pais espionavam filhos, filhos espionavam pais, esposas espionavam maridos, etc... FAMILIARES entregavam FAMILIARES ao regime???
Portanto, os comunistas miseráveis da "Stasi", a polícia secreta da (extinta) Berlin Oriental, é que foram a causa de grandes "neuras e debilidades psíquicas" que perduram até hoje, não essa tal de "auto-censura"!

Anônimo disse...

Quem é Caetano?!?

Márcio Rocha disse...

isso naum passa de picuínha partidária...

pode parecer esquerdista o texto do miguel, mas acredito que a ênfase tenha sido outra...

Ayres Filho disse...

Camila,

Cerestino entendeu bem o que você escreveu, assim como eu entendi. Se ele não entendeu, então você não entendeu o texto de Miguel. Como bem observou o Márcio Rocha, a ênfase de Miguel foi outra. Não esta estritamente partidária a que você recorreu.

Agora, o que é realmente lamentável é usar sua ideologia direitista e facista (como mesmo denominou) para justificar a atitude - essa sim - grosseira e cafona de Caetano, justificando a boçalidade e o preconceito nojento (ou seria recalque?) do - esse sim - ditador da mpb, só mostra o quanto você não tem moral para criticar Lula, Miguel, Cerestino, a mim ou a qualquer que discorde de você.

A este disparate Lula, de uma maneira polida e educada - como cabe a quem não é grosseiro e cafona - respondeu:

'Eu compreendo o ódio, o intelectual que está assistindo um operário que só tem o quarto ano primário - e não tenho vergonha de dizer - ganhar tudo o que ele imaginava que pudesse ganhar e não ganhou por incompetência é muito difícil. É muito engraçado, tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de estudo [ligado à universidade] que você tem. Não tem nada mais burro que isso'.

#prontofalei

Camila disse...

Quando um esquerdista é pego em flagrante falando o que não deve obviamente q seus comparsas afirmam q não era este o caso.

Gustavo Abadie disse...

Caetano, Cerestinho e outras perfeito idiotas latino-americanos acham lindo expressar sua opinião torta e cada vez mais arraigada na midia brasileira.
Ayres é "patético" ao elogiar o apedeuta presidencial, este ator que viveu as custas do partido/sindicato e que de administração não entende nada.
República é o governo feito pelo melhores homens, os mais gabaritados e estudados sim, Sr.Ayres. Certamente, o senhor não permitiria que um pedreiro com sonho de ser cirurgião operasse este seu brilhante cerébro. Bueno, dado a sua argumentação anterior, penso que permitiria, afinal das contas, tu pelo partidão.
Quer mais Lula, mais socialismo, mais comunismo, junta as malas e vai para Cuba, com sua camiseta do Che, bonezinho do Obama e botom do Lula inscrito "eu não sei de nada".

Parábens Camila, ferro nesta cachorrada!
Abraço para o gaiteiro,
G.

Rosimario Junior disse...

É um texto bem construído, mas que falha miseravelmente ao polarizar (ainda que veladamente) a velha questão "esquerda x direita", "proletariado x burguesia"... Se tais termos soam ridículos na boca de comunistas, socialistas, etc., aqui o mesmo efeito de anacronia se dá por seu avesso...

Enfim, o texto original de Miguel não é partidário ou ideológico ao rebater a fala de Caetano... Assim como (guardadas as devidas proporções) Arnaldo Jabor, ao criticar o lulismo, não se monstra um direitista...

Um abração!

Ayres Filho disse...

Gustavo, a esquerda não é a salva-pátria. A direita, tampouco. Lula não é Jesus Cristo, como afirmou Chávez (como cristão, enxergo que está bem longe disso). FHC, Serra e outros da mesma laia, muito menos.

Mas talvez (pelo teor do seu comentário) na sua opinião, sim, os mais gabaritados e estudados como FHC devam figurar como os Cristos do amanhã. A esperança do porvir.

Que Ele nos proteja...


P.S.: Interessante o texto sobre fariseus postado em um dos seus blogs (no qual há uma forte crítica à teologia intelecual, mas contraditória do catolicismo). Valorizando gente (em sua maioria, simples), e não títulos e bandeiras, foi que Jesus lançou ao mundo a semente da esperança do Evangelho.

#contradição

Márcio Rocha disse...

gustavo na aba(die)

como toda vertente acaba gerando os seus fundamentalistas; e estes, por sua vez, naum perdem a oportunidade de brandir suas espadas, ainda mais agora com o advento da mídia digital, onde qualquer idiota se torna valente!

na minha frente, vc até me cumprimentaria, colocando o rabinho entra as pernas...

não confunda as coisas!

e camila, meu comentário limita-se apenas a perceber o esquerdismo no texto do miguel, sendo que pouco me importa quem seja quem ou o quê...

fica com meu abraço fraterno, companheiros!*rs

Anônimo disse...

camila deveria aprender diplomacia com o pava

muito temperamental!

deve ser a TPM

Pavarini disse...

devagar com o andor que o blogueiro é de barro, people. =)

falhei ao liberar comentários cujos adjetivos se distanciaram das ideias e foram dirigidos a pessoas. perdoem-me!

há inúmeros espaços nos quais esse tipo de barraco é a "pièce de résistance". não aqui! =)

big abraço

Camila disse...

De minha parte, está tudo bem, Pava.
Ao escrever o q escrevi, do modo como escrevi, já sabia exatamente quais seriam as reações.
No entanto, lamento por qualquer desconforto q tenha sido gerado, por ocasião do meu texto, ao teu blog.

Pavarini disse...

sem problemas, camilla.

a partir de agora só vou liberar no post comentários relacionados às ideias do seu texto.

abs

Fernando disse...

Camila, o Miguel respondeu, acho que você deveria ler...

Ayres Filho disse...

Enfim, o bom senso.

Sérgio, parabéns pelo blog! ;-)

Abraço.

Anônimo disse...

Camila não entendeu o que o Miguel escreveu e acabou partindo para um tipo de agressão infantil e ultrapassado. Não sei por que ela ficou tão incomodada com o texto do Miguel. Alem do mais deixou de tratar do assunto principal que era a declaração do Caetano. Até o proprio já reconheceu que foi infeliz.

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