9.3.10

Gaia para presidente

Poucos filmes provocam uma cisão tão forte no espectador crítico quanto "Avatar". Os olhos se enchem com as imagens possantes e o emprego virtuoso, nada exibicionista, dos recursos tridimensionais (3D). Já o argumento... (...)

O filme é um pastiche de todos os clichês e gêneros cinematográficos de sucesso, mas resultaria inofensivo se não fosse também a xaropada ambientalista. (...)

Para não deixar dúvida sobre a importância da interconexão, o povo de Cameron (James Cameron, o diretor) criou até uma trança USB, por assim dizer. Na ponta do feixe de cabelos, minhoquinhas brilhantes se fundem com as de uma antena em cavalos de seis patas, com as de dragões de montaria, até com as de árvores.

O exemplo cinematográfico de evolução convergente cumpre a função didática de sublinhar a comunicação direta entre "humanos" e a Natureza, com "n" maiúsculo. Em língua na'vi, com a divindade Eywa, a força telúrica que tudo interliga, ou religa. (...)

[A] pré-candidata a presidente da República pelo Partido Verde, Marina Silva, reservou tempo em sua agenda para dele tratar em seu blog. O texto tem uma centena de linhas e o título "Avatar e a Síndrome do Invasor". (...)

Quem conhece Marina Silva (...) logo percebe que ela foi fisgada pela pedagogia mística de Cameron. A destruição se revela tanto um pecado quanto uma agressão contra a crença alheia identificada com o bem.

"No filme, como o valor em questão era a riqueza do minério, a floresta em si, com toda aquela conectividade, toda a impressionante integração entre energias e formas de vida, não vale nada para os invasores. Pior, é um estorvo, uma contingência desagradável a ser superada", escreveu.

A componente mística e enaltecedora dos povos iluminados da floresta não é obrigatória para adotar uma perspectiva ética nas considerações sobre a relação entre homem e natureza. Pode-se chegar a isso pela pura força da razão, sem a fantasia deslumbrante de eleger Gaia.

Marcelo Leite, na Folha Online.

2 comentários:

Gabriel Nagib disse...

O quê a Marina argumentou, foi a arrogância com quê os invasores trataram o conhecimento dos nativos.

É a mesma arrogância do escritor do artigo. "Conhecimento de índio é lixo, só serve o MEU conhecimento".

Alliadoo disse...

Pavarini, fiquei muito feliz por sua visita e também por decidir seguir o Papo Reto, visto que você é um dos notáveis da Blogosfera. Maneiro...

Prezo pela sã doutrina e sua aplicação no cotidiano. Espero que seja edificado pelo conteúdo.

Permaneçamos firmes!

irmão André

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