20.3.10

O Louva-a-deus ateu

Laurindo seria um louva-a-deus comum se não fosse um desvio sutil em sua natureza: era ateu. Não obstante, e bem distante aos seus semelhantes, poderia se passar por mais um da sua espécie.

Laurindo saltava distancias incríveis, camuflava-se, emboscava-se, comia moscas e joaninhas sem neuras. Leia-se, sem agradecer, como faziam seus companheiros de caçada. Além do que, não se sentia culpado, comia indiscriminadamente, moscas e joaninhas jovens e adultas. Isso lhe dava vantagens e fama dentro do enxame. A vantagem é que como não perdia tempo em ficar se perguntando se isso era correto ou não, ele somava feitos incomparáveis. O medo é armadilha desarmada que captura sem prender. Chegou a ser contratado como terceirizado por outros clãs de caçadores, cujos indivíduos não davam conta de abastecer sua própria comunidade das provisões necessárias para a sobrevivência.

Já a fama decorria do fato e do boato que corria de que se tratava de um inseto super-dotado. Alguns mais maldosos diziam que, contrariando a espécie, possuía algum tipo de veneno que o protegia de seus predadores, em especial o vespão. Daí voltar intacto de regiões que outros jamais poriam os pés... Mas Laurindo era apenas um louva-a-deus ateu.

Para não se concluir que louva-a-deus é um bicho ingênuo e não dado às aventuras do pensamento, havia sim, entre os catedráticos, uma tênue desconfiança das mazelas de Laurindo e de seu, digamos, desleixo religioso. Porém, sem provas e com pavor, tudo era guardado e esquecido com muito sigilo.

Um dia, dada esta fama, Laurindo foi convocado para liderar um grupo de trabalho que é o sonho de trabalho de todo louva-a-deus: cuidar de jardim; ou melhor, cuidar para que as pragas não acabem com o jardim, já que o louva-a-deus é um controlador natural.

Laurindo, meio contra a vontade, mas foi. Ali conheceu outros guerreiros de valor, contudo, todos se colocavam em submissão a Laurindo e no final do dia gostavam de conversar sobre seus feitos. Ali também que ficou sabendo com alguns doutores, que o formato em triângulo de suas cabeças, aludia à imagem de Deus, razão de suas existências. Todas as manhãs ao olhar no espelho, Laurindo se lembrava disso, achava ridículo, mas não comentava. Pensava: se a cabeça faz lembrar um Deus, o abdômen faz lembrar um Diabo, com sua ganância e peso.

Ali foi também que conheceu Lívia, uma louva-a-deus linda e recatada. Mais camuflada que o mais camuflado dos louva-a-deus. Tanto é que, até mesmo Laurindo custou a descobri-la. Nas ramagens que ficam no último canteiro, no perigoso espaço junto à fonte, ela costumava ficar.

A primeira troca de palavras:

- Oi, meu nome é Laur...

- Eu sei.

Só isso bastou para Laurindo se apaixonar. Bastou para ele construir um sorriso em sua enorme cara triangular. Bastou para ele, pela primeira vez, sentir medo.

Passou o tempo. Sempre com pouquíssimas palavras, Lívia contou muitas coisas para Laurindo e ele contou muitas coisas para ela. Lívia contou que sempre viveu ali, perto das águas e do mundo externo. Laurindo contou do seu enorme vôo e que um dia, se ela quisesse, podiam voar dali...

Acontece que, sem a concentração e o comando de Laurindo, que passava horas e horas desvendando Lívia, o jardim voltou a se degradar pela proliferação das pragas.

Na primeira tarde do outono, Laurindo morreu no ato do acasalamento, com sete meses de idade. Dele só foi encontrado uma da garrinhas das pernas e a metade da mandíbula.
Lívia, que o comeu depois do amor, voou com suas próprias asas para a fonte e seu destino final é contado de diversas maneiras pelos louva-a-deus daquele jardim.

Wilson Tonioli, no Verticontes.

5 comentários:

Felipe disse...

Qual é a moral da história?

Cristo, consolo para o cansado disse...

NóóóSSSAAAA!!!

Anônimo disse...

Eu num intendi o que ele falô!

Marli disse...

Qual é a moral da história? [2]

Diógenes SkauSURF disse...

Moral da história:

Se voar não pega a Lívia, e se ficar a Lívia come!

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