24.3.10

Por que não sou de esquerda

Diante do problema do mal, experimentamos a urgência de uma solução. Para quem crê, Jesus satisfez essa urgência: inocente, sacrificou-se por nós. Assim, o cristão fiel declara com tranquilidade que o mal está em si, confiando em Cristo para a redenção. Porém, para quem não crê, o problema do mal resta irresolvido e a solução será sempre externa. Este é o “mecanismo do bode expiatório”, segundo René Girard: fazer com que alguém encarne o mal e eliminá-lo, gerando sacrifícios sem fim (enquanto a Bíblia enfatiza: o sacrifício de Jesus é eterno).

Isso se verifica facilmente entre nós, ocidentais, quando lembramos os assassinatos em massa do século 20. Judeus, ciganos, cristãos dissidentes e povos não-alemães foram os bodes expiatórios da Alemanha hitlerista: quarenta milhões de mortos. Da mesma forma, nos países comunistas o vago conceito de “classe dominante” tem justificado a condenação à morte de mais de cem milhões. Trata-se um ciclo diabólico, pois não há sacrifícios que cheguem para a sanha dos que pensam combater o mal dessa maneira. Assim, a violência aumenta na mesma proporção do secularismo.

A equiparação entre comunismo e nazismo não é novidade. No entanto, de certo modo o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães era melhor nisso: mentia menos. Seus membros não escondiam o desejo de conquistar o mundo; já o socialismo oculta seu projeto de poder total sob a compaixão pelos pobres e a promessa de um futuro glorioso. O autointitulado “protetor dos oprimidos”, ao tornar-se chefe da nação, passa a valer-se de sua anterior (e farsesca) posição de “oprimido” para solapar resistências e positivar desmandos. E o povo, além de mais empobrecido, fica definitivamente sem voz. Na Rússia, na China e no Camboja a arbitrariedade apenas mudou de mãos, tornando-se voraz como nunca; em Cuba, uma favela carioca pareceria condomínio de luxo na parte não-turística da ilha; na Venezuela, Chávez diz “eu sou o povo” para justificar a progressiva supressão da democracia.

Hoje não há cristãos nazistas (espero!), mas há uma miríade de cristãos socialistas ou comunistas. É algo difícil de compreender. Em primeiro lugar, por que um seguidor de Jesus aderiria a um arremedo de plano da redenção? Para confessar esse endosso, precisaria necessariamente subverter todo o pensamento bíblico, substituindo a criação divina pela matéria autônoma, o pecado original pela propriedade privada, a salvação em Cristo pela revolução socialista. Se não o fez, é porque ainda oscila entre os dois mundos, sem perceber que são díspares -- a cultura marxista mimetizando a cristã.

Em segundo lugar, por que um cristão se posicionaria a favor de um Estado forte que pune seus dissidentes? O processo de centralização do poder empurra a igreja ou para o servilismo ou para a clandestinidade onde quer que o socialismo seja implementado. De fato, Hannah Arendt estudou o totalitarismo e concluiu que o isolamento torna o ser humano muito mais vulnerável ao controle estatal. Por isso, esse regime ataca prioritariamente as livres associações (a família, a igreja, a escola, o comércio), buscando atomizar a sociedade no melhor estilo romano “dividir para conquistar”.

Ser socialista e cristão é tomar o partido de César, não de Cristo. Sobretudo, ser socialista e cristão no Brasil de hoje é assumir uma postura perigosíssima para a igreja. De várias maneiras, o governo atual, honrando suas influências teóricas e suas alianças internacionais, busca cada vez mais controle sobre a sociedade. É quando precisamos recorrer aos ensinamentos de Calvino e Kuyper: por causa do pecado, Deus instituiu os magistrados para punir os maus e garantir a ordem; porém, o Estado “jamais” pode ferir a soberania das esferas individuais, familiares e corporativas, pois a autoridade de cada esfera descende igualmente de Deus. Caso o faça, devemos orar para que retorne ao ideal divino, opondo-nos a cada atentado à liberdade e amparando os perseguidos. Mas isso só será possível se substituirmos a cosmovisão esquerdista por uma genuína cosmovisão cristã. Que Deus ajude a igreja brasileira nessa empreitada.

Norma Braga, no site da Ultimato.

13 comentários:

Anônimo disse...

Só uma perguntinha básica. Que textinho de merda é esse? Comparar nazismo com comunismo é igual comparar Nabucodonor com a bunda do senhor.

Hannah Basso disse...

A comparação é válida, ambos (comunismo e nazismo) são propostas totalitárias e que quando colocadas em prática suprimiram as liberdades individuais, instalando tortura, terror e a pena capital. Um é uma proposta totalitária de direita e outra de "esquerda".

Anônimo disse...

Por que a Doutora não mencionou o sistemático e lento processo capitalista de suprimir as liberdades individuais?

Um cristão deve aliar-se ao sistema, que ela sugere apoiar, que exclui e joga para a periferia meninos e meninas sem escola, sem cidadania, sem acesso à medicina?

Dá um tempo!... O artigo da Doutora é superficial, anacrônico e panfletário. Eis a cara lavada da Direita!

Fátima

euro disse...

Vejo muita gente da cátedra envagélica, escrevendo contra a esquerda, mas ninguém s eposiciona contra a direita. è fácil bater no comunismo, pois ele é aparentemete opressor.
Mas como já foi postado, porque não falar da realidade do capitalismo neo-liberal em que estamos mergulhados doutora, nosso problema não é com o comunismo, principalmente porque grande parte da juventude cristã, além de nunca ter se debruçado sobre o Manifesto Comunista. Não teriam saco p/ viver tal utopia, estão ocupados demais ganhando suas vidinhas, sem contar q isso já tá "ultrapassado".
Se tesmo problemas quanto a isso, quem dirá em implantarmos o Reino doutora?
Mas o meu problema maior, não é nem esse, mas a capacidade que evangélicos tem de demonizar as coisas, podemos demonizar tanto o comunismo, quanto o capitalismo.
Assim como podemos demonizar o cristianismo pela inquisição, pelo antisemitismo, pela elitização e visão de desenvolvidos e subdesenvolvidos.
Em fim doutora, creio q a teoria pode ser separada da prática, e q essa mesma teoria pode também ter suas atenuantes e desdobramentos, o q não vi a senhorita fazer em momento algum.

CHICCO SAL disse...

Tá bom, tá bom... seja de esquerda, seja comunista, defenda Cuba (como se por lá todo mundo fosse para escola, fosse tratado com dignidade) e vá morar ou ter apartamentos em Paris como o Luis Fernando Veríssimo, o Chico Buarque, etc...

Nenhum sistema seja de direita, de esquerda, de centro, capitalismo, etc, coloca ou confere ao ser humano dignidade... todos os sistemas buscam o interesse de uns poucos, simples assim. Até nas igrejas é assim. PONTO.

Fernando Branco disse...

Como falar mal do comunismo???? Do esquerdismo???? do socialismo ???

Como????


Viva Marx
Vida Lênin
Viva Stálin
Viva Trotsky
Viva Che
Viva Fidel
Viva Chávez

A revolução não morreu!

Rui Luis Rodrigues disse...

O texto da Norma Braga parece ter sido escrito para um boletim de igreja de 30 anos atrás; muito condizente com alguém que até recentemente em seu blog recomendava a leitura de um livro chamado "Era Karl Marx um satanista", escrito pelo pastor romeno Richard Wurmbrand (herança da época da Guerra Fria!). Por favor, alguém diga à dona Norma que o mundo andou pra frente!
O fato é que ela não percebe que não podemos falar hoje em polarizações simplistas (capitalismo versus comunismo); trata-se de encontrar um caminho de valorização do ser humano e de sua libertação - e para isso, infelizmente, a igreja evangélica ainda tem feito pouquíssimo!

Charles Fernando disse...

O nazismo era liberal? Era conservador? Então como pode ser de Direita?

Hitler era aliado de Stalin! Foi Stalin que armou a Alemanha Nazista. Assistam o documentário The Soviet Story de Edvins Snore.

Quando os comunistas tomaram a Alemanha, pensam que destruíram os campos de concentração? Nada, estavam os usando contra os poloneses!

É de Hitler a frase:

"“We are socialists, we are enemies of today’s capitalistic economic system for the exploitation of the economically weak, with its unfair salaries, with its unseemly evaluation of a human being according to wealth and property instead of responsibility and performance, and we are all determined to destroy this system under all conditions.”

Adolf Hitler (Speech of May 1, 1927. Quoted by Toland, 1976, p. 306)"

Ou seja, ele só era o que o PMDB é pro PT, um irmão gêmeo, a direita da esquerda..ele só discordava dos comunistas em um ponto: internacionalismo.

euro disse...

Só mais uma coisa p/ esse texto. Ele tem cara e cheiro de gueto, só. É apenas um texto de alguém que vive num gueto social!

Maya disse...

Norma Braga, penso, escreve e pensa como poucos. A maioria dos comentários aqui registrados se atém a ofendê-la - e fazem isso sem de fato contestá-la. Na verdade, não procuram analisar com maior profundidade o que ela diz. Provavelmente, e quase sempre, os esquerdistas não leram as obras dos que criticam nem tampouco - e essa é a maior tragédia - os escritos socialistas. Ler obras de Marx, Lênin e Trótski, por exemplo, é se deparar com uma proposta de sociedade cuja ética é flutuante, cujos princípios morais fogem da base do cristianismo e de qualquer outra minimamente honesta (basta ler A abolição do homem, de C. S. Lewis, para saber como esse mecanismo ocorre), que é a Bíblia. Para os socialistas, ética, princípios e moralidade advém da ideia do homem como juiz de si mesmo - mas não para seu bem estar e liberdade individual, apenas a exaltação de uma ideia coletiva e hoje distante da realidade chamada proletariado. Em nome do proletariado, cria-se uma casta sagrada que, em todo tempo, oprimiu, matou, censurou, corrompeu e perseguiu os opositores, cristãos ou não. O fato é que as experiências REAIS de socialismo - não falo aqui de teorizações - demonstraram o completo fracasso humano em "criar" o novo homem predito por Marx. A ideia utópica de comunismo, então, jamais existiu, em lugar algum. O capitalimo, que não tem somente qualidades, isso também é fato, permite à sociedade maior movimentação de ideias e fluxo de debates. O texto de Norma, penso, não absolve o capitalismo de suas falhas, nem diz que ele é o modelo cristão de sociedade, mas questiona de maneira profunda como um cristão pode ser, ao mesmo tempo, socialista. Penso que o centro filosófico do debate é: colocaremos o homem como o centro e a fonte de existência de um novo mundo ou essa transformação só é possível mediante a ação salvífica de Cristo, em em um mundo não decaído pelo pecado? O debate, portanto, é desde sempre, entre o idealismo cristão e o materialismo marxista. Sem chegar ao cerne da questão, creio que não há debate. Não, pelo menos, honesto. Uma ideia de bem estar social coletivo não é socialismo; a raiz filosófica da ideologia socialista foi o que Norma Braga quis trazer à tona. É preciso que os seus críticos leiam mais. Particularmente, como ex-socialista (das que leu o Manifesto e muitas outras obras), devo dizer que concordo plenamente com as ideias de Norma.

Maya Felix

Anônimo disse...

Puxa que bom o comentário da Maya!
Eu,com certeza não me expressaria tão bem como ela, até por não ter tanto conhecimento de causa. Agora o triste é ver os ataques à pessoa da Norma sem ter argumentação alguma.
Solus Christus!
Eis o paradigma para nós Cristãos.
Esquerda, direita, capitalismo, comunismo carregam em si o germe do Pecado humano. Triste de quem carrega o nome do Nazareno mas demonstra mais apego a essas fúteis ideologias.

Blog do Zazá disse...

Para ventilar mais a discussão, seria interessante uma lida no post do Ari http://logoarinoblog.blogspot.com/2010/01/eu-estou-farto.html,

Anônimo disse...

Maya, desde qdo o capitalismo é cristocêntrico?

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