17.4.10

Coisas inúteis

RAZÃO DE SER
(Paulo Leminski)

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lambram letras no papel,
Quando o poema me amanhece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde tudo o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Não raro escuto pessoas alegarem que não gostam de poesia por essa ser uma coisa inútil, ou por não a entenderem. E este post só tá nascendo porque eu tô viajando nessa idéia.

É evidente que o trabalho de um artista não é tão "útil" como o de um engenheiro ou de um administrador de empresas. A arte não gera efeitos pratico$, não se vê seus frutos, é algo interno, mental (espiritual, como preferem alguns). Conheço gente que é, por motivo$ obvio$, escritor de fim de semana, gente que faz música quando tem tempo, ou coisa parecida. E isso me lembra a passagem do Evangelho, em que Marta fica puta com Jesus e com Maria, sua irmã, por eles dois se sentarem à porta de casa para bater papo com os discípulos enquanto ela trabalhava sozinha.

Talvez, para Marta, ouvir Jesus falar não era mais importante que lavar a louça. Afinal, a casa limpa pode ser percebida por qualquer visita, mas o crescimento, a elevação que Jesus propunha era algo interno demais, quase invisivel. O que dói é perceber que mesmo depois de dois mil anos, as pessoas continuam muito mais marta que maria, mais formiga que cigarra.

Bem vemos o resultado do trabalho de um arquiteto, ou de um pedreiro: O prédio, a casa, a ponte... Tá tudo lá, à vista, concreto, aço, palpavel. Entretanto, o que um poema tem a oferecer? Que diferença faz ouvir uma música ou ler um romance, ou olhar uma tela, ou assistir a uma peça teatral, ou... ? Quê? Nada. É algo inútil.

Como bem definiu o porra-louca Paulo Leminski, "a poesia é um INUTENSÍLIO". Ela não se propõe a explicar nada, não há razão que a limite, não há o que esperar, se não o estado de reflexão, de graça, de contemplação que nela consiste. Daí o motivo pelo qual os artistas são vistos como vagabundos, marginais, preguiçosos, etc... Nossa cultura supervaloriza o visível, o material, a objetividade. Logo, o poeta, o músico, o ator, o professor, o filósofo, o teólogo e o santo são despresados, menos importantes.

Engraçado mesmo é notar a contradição que existe ai: Todo mundo curte um cinema de vez em quando, uma conversa com os amigos num bar, ver o sol se por numa praia, ir a um show, flertar com alguém, tomar banho de chuva... Essencialmente, temos fome de beleza, de afeto, de humanidade. Mas, por razões $ociai$, deixamos todas essas atividades para o fim de semana, e olhe lá. Num desses dias em que fui ao MASP vender meus livros, perguntei pra uma moça que ia passando se ela gostava de poesia. A resposta dela foi: "Não, moço. Graças à Deus eu não estou desempregada".

Em outros tempos eu ficaria puto. A chamaria de ignorante, alienada, fútil ou coisa parecida. Mas, hoje eu percebo que, assim como eu, ela é apenas uma vitima, pois, por mais que deseje liberdade, é forçada a se prender, a se render, a cumprir agendas e horários e metas e ordens. E dizer não a isso tudo implica em renúncia, em paixão, em encarar preconceitos inúmeros. Não é fácil.

Ainda com Leminski, "(...) Querer que a poesia tenha um 'por quê' é o mesmo que querer que um gol do Zico tenha um 'por quê', além da alegria da multidão; é querer que o orgasmo tenha um 'por quê'... pra quê 'por quê'?".

Gracco Oliveira, em Refém das Ideias.

4 comentários:

Luiz M. Soares disse...

Fala Pava,

Parece que tivemos uma "transmissão de pensamento"!
O post de ontem de madrugada do meu blog é exatamente sobre isso, e coloquei o mesmo poema do Leminski!! rs

Escrevo porque preciso!

Será que tem de haver um porquê?

Grande abraço!

Tá me devendo a entrevista hein!
Fique com Deus!

Simplesmente Tininha disse...

Amo essa inutilidade. Sou apaixonada por coisas que os olhos não enxergam. No filme do Pequeno Princípe, há uma frase que acho linda e puramente verdadeira: "O que é essencial pra vida não se vê com os olhos é sentida com o coração!" (nas minhas palavras).
Sábado é o dia em que mais me deleito nesse blog e me permito sonhar acordada...

Leopoldo Teixeira disse...

Cara, esse texto está bem relacionado com uma das perguntas que eu tinha pensado em fazer pra você hoje lá no plano b. Eu passei por uma fase em que estava desmerecendo um pouco a leitura de romances, ficção em geral, etc, só queria ler coisas que "me fizessem crescer e aprender mais"... :P

Felizmente me dei conta do quanto estava perdendo de crescer e aprender mais e o quão incoerente era a minha posição, dado que eu gosto de "parar pra escutar música"... :)

A pergunta, que seria em relação a qual um bom argumento pra alguém que passa por uma 'fase' dessas, basicamente acabou de ser respondida. :-)

bianca disse...

pra quê 'por quê'?".
Adorei essa frase! E gostei mto deste post, meesmo!
Realmente, estamos valorizando coisas amteriais... mesmo q mtas pessoas não encherguem o "INUTIL" tb tem um SIGNIFICADO... seja pra quem faz ou pra quem recebe. O ser humano precisa desse "inutil", o problema é que não admitimos isso.

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