2.7.08

A fé dos homofóbicos

Em 1946, quando os negros reivindicaram a inclusão de alguns direitos na Constituição, foi um salseiro. Foram acusados de antidemocráticos e racistas por congressistas e estudantes da UNE. Em 1988, a Constituição promoveu o racismo de contravenção a crime. Ninguém chiou. Na década de 50, quando se discutia o divórcio, teve cardeal dizendo que se devia pegar em armas para combater a proposta. Em 1977, o Congresso aprovou o divórcio. Não houve tiroteio, e a igreja do cardeal nunca mais tocou no assunto. Recordar é viver.

Agora, os evangélicos estão anunciando o apocalipse caso o Senado faça o que a Câmara já fez: aprovar lei punindo a homofobia com prisão. A lei em vigor pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. A nova acrescenta a punição por discriminação contra homossexuais. Cerca de 1 000 evangélicos tentaram invadir o Senado em protesto. Dizem que a criminalização da homofobia levará à prisão em massa de pastores e padres, e viveremos todos sob o domínio gay. A história ensina que, cedo ou tarde, a lei, ou outra qualquer com objetivo similar, será aprovada, e a vida seguirá seu curso regular sem nada de extraordinário.

Os evangélicos e aliados dizem que proibir a discriminação contra gays fere a liberdade de expressão e religião. Dizem que padres e pastores, na prática de sua crença, não poderão mais criticar a homossexualidade como pecado infecto e, se o fizerem, vão parar no xadrez. É uma interpretação tão grosseira da lei que é difícil crer que seja de boa-fé.

Tal como está, a lei não proíbe a crítica. Proíbe a discriminação. Não pune a opinião. Pune a manifestação do preconceito. Uma coisa é ser contra o casamento gay, por razões de qualquer natureza. Outra coisa é humilhar os gays, apontá-los como filhos do demônio, doentes ou tarados. É tão reacionário quanto uma Ku Klux Klan alegar que a proibição da segregação racial fere sua liberdade de expressão. Querem a liberdade de usar a tecnologia Holerite de cartões perfurados pela IBM?

Alegam que a liberdade religiosa fica limitada porque combater o pecado vira crime. É um duplo equívoco. O primeiro é achar que uma doutrina de crença em forças sobrenaturais autoriza o fiel a discriminar o herege. O segundo é atribuir à lei valor moral. O direito penal não é instrumento para infundir virtudes. É um meio para garantir o convívio minimamente pacífico em sociedade. Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada. Dúvidas? Recorram ao Supremo Tribunal Federal. Na democracia, é assim. Lei não é bíblia de moralidade.

O que essa proposta pretende dar aos gays, e sabe-se lá se terá alguma eficácia, é aquilo a que todo ser humano tem direito: respeito à sua integridade física e moral. Os evangélicos, pelo menos os que foram a Brasília, dão prova de desconhecer que seres humanos não diferem de coisas só porque são um fim em si mesmos. Os seres humanos diferem das coisas porque, além de tudo, têm dignidade. As coisas têm preço.

André Petry, na Veja.

6 comentários:

DCG disse...

OK, já tinha opinião formada a respeito do assunto, agora esta formada (ou desformada, diria um fundamentalista)ainda.
Abraço

Lucilene disse...

Muito, muuuito construtiva essa informação!
Parabéns por essa iniciativa! São muitos os desinformados sobre o real sentido dessa lei, por isso se deixam levar por qualquer pregação homofóbica.
Parabéns por essa iniciativa... é dessa forma q fazemos a história acontecer.
Lucilene Moraes
presidente do REPAIR
www.repaironline.org

Plenit/Delic disse...

Valeu!!!
Todo esclarecimento diminui o domínio e fortalece os marginalizados. Pena que muitos irmãos preocupam-se mais em não se envolverem que em fazer parte dessa nova etapa de conscientização.
Pontos pacíficos:
- Não somos criminosos;
- Não temos a intenção de agredir ninguém;
- Queremos apenas liberdade e paz e
- Também pagamos a conta desse país.

Paz e Bem! Jaira

fredigreja disse...

PRIMEIRAMENTE,
COMO EVANGÉLICO NÃO SOU ADEPTO DE DISCRIMINAÇÃO ALGUMA, O AMIGO ESTÁ MEIO DESINFORMADO...
O QUE LUTAMOS NÃO É PELA DISCRIMINAÇÃO DO GRUPO GLS, O QUE QUEREMOS SIM É A LIBERDADE DE DIZER QUE ATRAVÉS DE NOSSA VISÃO RELIGIOSA É ERRADO, COMO POSSO DIZER TAMBÉM QUE O LULA ESTÁ ERRADO EM SUA VISÃO POLÍTICA...
ESTUDO PARA SER PASTOR, E EM MEU PÚLPITO DIREI QUE É ERRADO, MAS NUNCA DEIXAREI DE ACOLHER, DE RESPEITAR, ENTRARÃO E SAIRÃO DE QUALQUER LUGAR ONDE ESTEJA SEM SEREM AGREDIDOS, ISTO É UMA IGNORÂNCIA!!
AGORA COMO NOSSO ESTADO É LAICO, NÓS TEMOS O DIREITO DE FALAR QUE SOMOS CONTRA O HOMOSSEXUALISMO, POIS ISTO ESTÁ ESCRITO NAS SAGRADAS ESCRITURAS, QUE SÃO BASE DE FÉ NOSSA.
POR FAVOR, PEÇO MAIS RESPONSABILIDADE COM RELAÇÃO A POSTAGEM DE INFORMAÇÕES...
NÓS SÓ QUEREMOS EXPRESSAR SIM NOSSA FÉ, MAS SEM AGRESSÃO AOS OUTROS, E QUEM PRATICA A MESMA FÉ QUE EU QUE FAZ ESTE TIPO DE VIOLÊNCIA OU DISCRIMINAÇÃO, NÃO É DE FORMA ALGUMA SERVO DE CRISTO, OU SEGUIDOR DO MESMO!
DEVE APRENDER MUITO SOBRE ESTE CRISTO PARA DEPOIS SE DIZER EVANGÉLICO...
GOSTARIA DE QUE AS PESSOAS DESSEM MAIS ESPAÇO AS PESSOAS SÉRIAS PARA DEBATE SOBRE ESTA SITUAÇÃO, POIS EM TODOS OS GRUPOS, INCLUSIVE NO GLS, E NO EVANGÉLICO HÁ PESSOAS DESINFORMADAS, MÁS TENTANDO SE TORNAR INTOCÁVEIS PELA LEI, OU TENTANDO SE FAZER "VOZ" DOGRUPO SENDO IGNORANTE E RADICAL, QUERO ME EXPRESSAR COMO OS GLS'S QUEREM, ELES RESPEITADOS EM SEU ESPAÇO E EU NA MINHA FÉ DIZENDO SER PECADO E TRATANDO DOS QUE CHEGAM ATÉ MIM TAMBÉM.
DEUS OS ABENÇOE E GUARDE

Daniel Moraes disse...

PARABÉNS!
Que texto lúcido e sensato!
O PLC 122 não condena "toda e qualquer crítica" aos homossexuais, como os radicais religiosos ardilosamente apregoam. O projeto de lei textualmente só condena "a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória" (vale lembrar que em Direito, constrangimento não se trata de "sensação de emcabulação", mas "coação"). E destas o texto NÃO inclui as de ordem religiosa. Assim, fica claro que críticas religiosas (pecado, céu e inferno etc) não são alvo da lei. Tem-se também que o STF já tem entendimento que liberdade de expressão NÃO contempla discurso de ódio, racista e discrinatório. Portanto, criticar vexatoriamente a identidade da minoria gay (ou outra qualquer) não é direito de ninguém - nem muito menos é um ato cristão.
Esse ataque de religiosos de direita contra leis que protegem a dignidade dos homossexuais só faz confirmar quão vítimas de preconceito eles de fato são.

Karin disse...

texto fantástico! parabéns!
vai ser uma prova de fogo,... os verdadeiros cristãos vão saber como agir, segundo Jesus,... conversando com Samaritanos, publicanos, prostitutas,... gente que é estigmatizada pelo bando de "crente", que esquece sua verdadeira e genuína função aqui no mundo.
Partircularmente foi esclarecedor, estava com medo da proibição de ensinamentos bíblicos a respeito, mas vejo q a coisa não é tão cabeluda quanto parece. Obrigada!