5.7.09

Plano ou contingência?

O enfrentamento Nicodemus X Gondim teve mais um “round” no “ring” cibernético, graças novamente a uma tragédia de âmbito mundial, a queda do AF447.

À semelhança do primeiro embate, por ocasião da catástrofe do Suname, o teólogo reformado Augustus Nicodemus partiu para debater as idéias propostas por outro teólogo de destaque no meio evangélico brasileiro, Ricardo Gondim. O ataque desta vez foi mais sutil, mas não menos ofensivo, no que tange os conceitos debatidos. Não menos esperto, desta vez, ele se reportou a um pseudo amigo de nome Bonfim (troque B por G e f por d e temos Gondim).

Gondim, sempre na vanguarda, colocou em seu site na internet um texto para meditação de seus leitores. Com oito parágrafos, 13 interrogações e pelo menos 12 menções diretas à idéia de “plano”, “causa” ou “objetivo”, ele discorreu sobre aquilo que chamou de “Contigência”, relacionando-a ao acidente do AF447. Ou seja, a causa última do acidente é justamente o “não plano”, a inexistência de causa inteligente ou um objetivo específico e maior. Em suas próprias palavras “um avião cai porque o mundo é contigente, não porque tenha sido vítima do destino ou de um plano de Deus”.

A reação imediata de Nicodemus, como na ocasião anterior, foi escrever um texto em seu Blog refutando a tese do pastor da Betesda. Para o chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o qual valeu-se de 16 parágrafos, duas interrogações e pelo menos 14 menções direta à idéia de de “causa”, “plano” ou “objetivo”, a queda do avião, não somente estava nos planos de Deus, assim como foi determinada por Ele. Em um só parágrafo o blogueiro usou nove vezes a expressão, “foi Deus quem” (ou variações desta) intercaladas com vários versículos bíblicos, numa tentativa de demonstrar que a ira de Deus seria motivadora das tragédias, as quais teriam sua causa no pecado original. Retórica essa a matar de inveja qualquer dos amigos de Jó.

Por outro lado, com suas inquietantes perguntas, um dos nordestinos mostrou que as explicações piedosas não convencem nem consolam. Impossível seria que Deus usasse deste mecanismo cruel para despertar o homem para o arrependimento. (De fato, o texto bíblico sinaliza que é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento).

Já o outro nordestino, em sua estratégia sofista, começou apontando supostas fraquezas do seu destinatário fictício, como a revolta e a aflição e se dispôs a ajudá-lo. Isso não somente é uma tentativa de vencer o debate já no ínicio, fora do plano das idéias, pela desmoralização do adversário, mas reflete infelizmente uma atitude comum em líderes evangélicos, que sempre se vêem no papel de paizão prontos a ajudar crianças imaturas e assim ocultam suas próprias fraquezas e dúvidas.

Finalmente Nicodemus aponta para o misterioso plano divino em sua totalidade, onde o objetivo da tragédia em foco estaria incluído como uma forma de “desapegar o homem das coisas desta vida e levá-lo a refletir sobre as coisas vindouras”. Essa, obviamente, é outra afronta direta à teoria de Gondim que apela para um viver intenso, uma vez que essa vida é imprecisa e efêmera.
Para esse autor, a contigência foi o caminho que o Criador achou para nos proporcionar liberdade e nos fazer humanos. Sem ela seríamos meros robôs, ou quem sabe deuses ou demônios.

Para mim, que sou administrador e não teólogo fica algo bem claro de todo esse debate e acontecimento: Na TGA – teoria geral da administração – a “teoria das contigências” absorveu todas as demais e mostrou-se preponderante pois é frente aos imprevistos que o bom administrador mostrará suas competências e versatilidade, não só em planejar, mas também para organizar, para dirigir e para controlar.

Pelo visto as contigências servem não somente para revelar um bom tomador de decisões, mas também um exímio mestre da Palavra.

Que o vento do Espírito, Ele mesmo, console os parentes das vítimas desse acidente, no Brasil e no mundo afora.

Roger, no blog Teologia livre.

16 comentários:

Anônimo disse...

Sabe? Como ex-presbiteriana concordo com os pensamentos do Nicodemus. Suas lógicas fazem todo o sentido. Só que eu não quero o deus dele; não quero, ponto final.

celebraii disse...

A descrição do confronto, feita pelo Roger é tão sensacional quanto os textos publicados por ambos pensadores. Nicodemus é muito inteligente, mas como todo fundamentalista encaixotou Deus. Gondim é poeta, teólogo, pastor, pregador, admite suas "incostâncias", seus "vascilos", reverente às Escrituras, já foi presbiteriano e assembleiano. O deus do Nicodemus é tirano; o Deus do Gondim é Soberano...Creio no Deus soberano revelado nas escrituras!

Bjo no coração,

Respeito e aprendo muito com os dois teólogos! Deus os abençõe....um dia, na eternidade Eles entram num conscenso!rs

Will

JulioB disse...

Complicado crer num deus de achismos. O Nicodemus pode ter errado, mas o deus do Gondim é um gás, um fantasma.
Bem, o sacrifício de Cristo atinge toda a eternidade, isso inclui o momento de grandes catástrofes naturais como o dilúvio.
Deus não é tirano, tampouco um malandro trapalhão.

Willcomjc disse...

Correção: Conscenso, não! Consenso, sim! Outra: Comi um monti de virgulas!rs
Foi mal! =P

João Carlos disse...

Vivi meus 40 anos ouvindo explicações simples para as tragédias e para as vitórias: DEUS QUIS ASSIM.

Deus não quis assim. ELE 'apenas' é eterno, onipresente e onipresente. Com isso Ele apenas SABE o que vai acontecer. Não escreveu os destinos das pessoas.

Isso é que é lindo em Deus e em seu caráter.

Concordo 100% com o Gondim. A contingência me lembra a música do Rush, 'Roll the Bones':

"Why are we here?
Because we are here, roll the bones, roll the bones.
Why does it happens?
Because it happens, roll the bones, roll the bones".

Falo mais sobre isso em meu blog.

http://superjotablog.blogspot.com/

JulioB disse...

João Carlos, não vou entrar no fator bibliotógico aqui, porque pode se prologar por demais. Mas essa sua conclusão com certeza não foi tirada através da Palavra. No mínimo contradiz o que a Bíblia fala.

João Carlos disse...

Julio, meu irmão.

Talvez não tenha lido a Bíblia tantas vezes como você, estou lendo ela agora pela terceira vez apenas.

Mas você dizer que o meu ponto de vista não é baseado na Palavra soa um pouco...

Talvez apenas por curiosidade você entrou em meu blog e leu o texto que escrevi: 'Deus É AMOR'?

Se você discordar podemos conversar mais a respeito. Aceito que você deixe seu comentário nele. Gosto muito que meus pontos de vista sejam colocados em xeque, isso aprimora meu raciocínio e minha relação com Deus.

Ah, esqueci de dizer: Atualmente moro no Rio de Janeiro, mas sou de São Paulo e fui membro da Betesda por uns bons 10 anos de minha vida... talvez isso tenha formado minha pobre teologia...

Bruno Siqueira disse...

De fato, enquanto continuarmos com essa leitura moderna da Bíblia, provavelmente continuaremos com essa visão reformada de Nicodemos..

Sinceramente? A questão é menos teológica do que cosmovisiológica (se é que existe essa palavra!).

A questão é que Gondim - de uma maneira muito correta, em minha opinião - aceita um outro pressuposto de mundo do que Nigodemos.

Ah, se querem discutir "desapegar dessa Terra", ao invés de ficarem presos ao presos aos paradigmas protestantes (sim, eles erraram muito também!), leiam o livro "Surprised by Hope" de N. T. Wright que será lançado em breve em portugues pela Ultimato...

Chega de platonismo no cristianismo!

Joel Theodoro disse...

Parece que voltamos sempre e sempre à velha tônica de julgar os fatos divinos e transcendentes pela nossa (in)capacidade humana de julgar. Redundante? Mas não é isso que fazemos? Um monte de gente se encanta com teorias/ teologias novas, que simplesmente dizem que Deus diz o que Ele não diz. É o mesmo pressuposto de gente que lê a Bíblia apenas com a intenção de achar seus "furos". Achar desvios de Deus; achar erros da Bíblia. E não falo de ninguém mais que não os crentes. Se Deus é soberano, como explicar que Ele seja tomado de surpresa por eventos a Ele desconhecidos? Esse é o caminho da Teologia Aberta (do Gondim). Filosofia, poesia, artes e literaturas servem para enlevo do espírito humano, mas não para suplantar o pensamento bíblico-cristão. São ferramentas excelentes, mas não o esteio maior. Aos reformados de plantão (um deles sou eu), um lembrete: cuidado para a crença (correta) da soberania de Deus em TUDO, inclusive nas circunstâncias menos felizes, não nos tornar secos e sem amor. Isso também é pecado, tanto quanto desconstruir Deus e Sua Palavra!

Alexsandro Sant'Anna disse...

De todas as refutações que pude ler, não encontrei ninguém que vislumbrar-se discutir os argumentos do Dr. Nicodemus refutando os textos por ele utilizado no metodo exegetico orientado em 2 Tm 3.16-17, fora tal, continuaremos no campo da especulação. Concordo plenamente com o comentario do Joel Theodoro e definitivamente afirmo que ainda não compreendemos o real significado da expressão "Deus é soberano". Em Cristo e na sua paz.

Simon Lino disse...

Contra provas não existe argumento. Nicodemos prova na bíblia. O que as pessoas não querem é o Deus da Bíblia. Eles não querem esse Deus, preferem fazer seus próprios deuses, vacilante, incerto, inseguro, desconhecedor, enfim, um ídolo feito por suas próprias mãos. A questão é: você quer ou não quer o Deus da Bíblia?
A bíblia afirma categoricamente as seguintes coisas:
1- Deus é bom
2- Deus é todo poderoso
3- O mal existe
Por a mente humana não conciliar essas afirmações bíblicas nascem às heresias e a idolatria. Junto a ela um punhado seitas.
Desconheço outro Deus que não seja o revelado por Sua Palavra, venha da onde vier, seja das religiões orientais ou da meio do evangélico.
Sou batista e estou com Nicodemos.
simon_lino@yahoo.com.br

Luiz disse...

Acho interessante os comentários apresentados aqui... em particular os comentários em defesa do texto do Nicodemus. Se eu levar isso ao extremo (cada ato/consequencia/acidente/tragédia ser a 'plena vontade de Deus' - para usar esse conceito) então cada estupro, assassinato de crianças - inclusive em rituais de magia negra - ou caso de pedofilia é também a plena vontade de Deus. Um ponto que eu acho difícil de defender e mais difícil ainda de engolir. Mas vamos em frente.

Quanto aos comentários sobre o texto do Gondim, apesar de entender que são conceitos difíceis (Deus, sendo Todo-poderoso, Onisciente, Bondoso e Amoroso, aparentemente decidir ocasionalmente não fazer nada a respeito do mal no mundo) eu acho mais palatável, porque coloca em cena alguns elementos que com certeza fazem diferença: livre arbítrio seguido de relação de causa e consequência, i.e. a liberdade do homem fazer o mal e outros sofrerem por causa disso, sem que isso seja o 'pleno plano de Deus'. Ou seja, não é que Deus foi "pego de surpresa", mas para haver um verdadeiro livre arbítrio tem que haver uma verdadeira liberdade, com a possibilidade real de fazer o mal (C.S. Lewis explicou/argumentou isso de forma excelente no livro "O problema do Sofrimento"). Será que isso implica então que Deus não é Onisciente ou Onipotente ou Bom? De forma nenhuma. Mas Ele efetivamente nos entregou a capacidade de fazer tanto o bem como o mal, sabendo que nós poderíamos e usaríamos essa capacidade para o mal, muitas mais vezes do que Ele gostaria. Se não tivésssemos essa liberdade (por não podermos executar atos maus, ou termos pensamentos maus), não teríamos mais liberdade que um robo ou um programa de computador, que só podem executar aquilo para que foram instruídos.

Não nego que a raiz de todo esse mal que há no mundo é decorrente do pecado no Éden, mas afirmar que cada consequencia nefasta ou acidente no mundo é por causa de pecado também contradiz a palavra de Deus:

1 - lembre-se que antes de tudo o que aconteceu com Jó, ele não havia cometido pecado que justificasse aquelas tragédias - e é o próprio Deus que afirma isso;
2 - os amigos de Jó, que tinham acusado Jó tão seriamente (afirmando que as desgraças que vieram sobre Jó eram castigo divino por pecados ocultos) são repreendidos pelo próprio Deus, que afirmou que "(..) não dissestes de mim o que era reto (...)" e ainda contrapôs que Jó tinha dito o que era reto sobre Deus;
3 - quando Jesus curou o cego de nascença, Jesus afirmou que aquela enfermidade não era por causa de pecado;
4 - na mortandade da queda da Torre de Siloé e no caso dos galileus que Pilatos misturou o próprio sangue deles ao sacrifício que estavam fazendo, Jesus também afirmou abertamente que eles não eram nem um pouco mais culpados que os habitantes de Jerusalém ou que os demais habitantes da Galiléia (i.e., se os demais habitantes da Galiléia e de Jerusalem eram tão pecadores quanto aqueles que morreram, porque não aconteceram outras desgraças com eles?).

Abraços

V. Frari disse...

No final, em meio a um universo livre, caótico e imprevisível, Deus alcançará o que quer. Isso é ser soberano!

Hernan disse...

Deus criou o Nicodemus para ensinar-nos, ignorantes, que tudo é determinado por ele.
E criou o Gondim para desmentir o Nicodemus.
O Nicodemus está fundamentado no texto bíblico.
E o texto bíblico, está fundamentado em quê? Uma variedade de composições que a história, e principalmente a geografia, reuniram. As raízes da bíblia estão num lugar bem delimitado, no sentido geográfico mesmo, e a árvore creceu ao longo dos séculos. Sofreu enxertos, dilacerações, podas...
Sua sombra abriga amigos e inimigos, todos reivindicando sua legitimidade. É apenas uma árvore, para o bem ou para o mal. Ambos abrigam-se à sua sombra.
Puxamos o tapete do Nicodemus. Seu edifício não tem sustentação.
Mas o povo gosta de se iludir, pelo menos enquanto não caem com algum avião ou não pegam a gripe dos porcos. Ah, os porcos. Não se deve confiar neles, como bem lembrou Eric Arthur Blair.

Francisco Mário disse...

Achei interessante esse comentário acima. É o típico exemplo de uma pessoa que prefere o seu próprio deus e não o da Bíblia. Ela concorda com o Nicodemus, mas não quer o Deus dele. Com certeza já fez um à sua imagem e semelhança, pois se concorda com o Nicodemus, como não quer o Deus dele, já que ele se baseou nas Escrituras?

Outra coisa: A administração dos homens tem contigência, mas a de Deus não. Comparar a administração humana com a de Deus demonstra problema teológico grave.

Marcos Rogério disse...

A Bíblia é infalível?

- Se não: vamos por ai com o Gondim.
- Se sim: ficamos a revelação de Deus.

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