Não sou contra receber cuecas de presente. Que venha da namorada, da mãe, de amigas. Não ficarei decepcionado, não lamentarei os fantoches desajeitados da mão para satisfazer a ansiedade. Vale os pulos da respiração.
A cueca tem independência, sugere um momento especial de estreia, um cuidado, tem espaço próprio na gaveta.
Mas não tolero receber meia. Não é presente, é um insulto de pano.
Meia humilha o aniversário. Lembraremos do que faltou. Não é por nada que é categorizada como lembrança. Lembrança do tênis que não veio.
Dar meia é dizer que não tem dinheiro ou que o presenteado não merece seu dinheiro. Ambas afirmativas estão certas. Mas é insinuar algo mais grave: que ele não merece nem seu crédito.
É igual a considerar coxinha de frango como um almoço.
Meia é acompanhamento, deveria vir como brinde. Sou favorável a proibir sua venda em separado.
Meia é acessório. Uma falsa expectativa. Ai de quem pedir para embrulhar. Teremos mais trabalho em resolver a decepção do que em desfazer as dobras do papel. Meia é o cartão de visita do terapeuta.
Durante cinco aniversários, dos sete aos doze anos, meu avô paterno unicamente me oferecia meias. O papel-presente de palhaço justificava a escolha. Nem segurava direito, ainda recordo do pacote gelatinoso, informe, com o barulho irritante do plástico. Preferia que seu amor por mim fosse descalço.
- Acho que vai gostar, ele me apontava.
Como alguém pode afirmar que vou gostar de meia. Meia não se gosta, se perde. A meia some para testar nossa memória. Seus pares são uma indústria de divórcio. Não sei o que acontece na máquina de lavar. Mas nunca as meias voltam completas. Terminam solitárias. Casais são dissolvidos no Omo.
Coitadas, então, das brancas, condenadas a um swing interminável até surgir os primeiros furos.
Meia não se aposenta, morre subitamente no lixo.
A meia é uma luva no verão. Estranha, esquisita, é o que a gente já deveria ter antes de nascer.
Estava me acomodando com a teoria e desligando o computador, quando minha filha Mariana me telefona e pede pares de meia.
- Meias?
- Sim, pai, eu adoro meias, é meu presente predileto.
- Por quê?
- Com uniforme escolar obrigatório de cima para baixo, posso me diferenciar apenas pelas meias.
Meu avô deveria ter aguardado os bisnetos. Era muito evoluído para seu tempo.
Fabrício Carpinejar
arte: Philip Guston
29.8.09
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Um comentário:
Melhor que um bom par de meias, só uma fantástica pizza meia-meia!
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