8.8.09

Por um outro Brasil

Há pouquíssimos dias ouvi de dois amigos, ambos sujeitos esclarecidos, com formação superior, a opinião de que realmente não vale a pena interessar-se por assuntos políticos, dada a atual situação no senado federal. Segundo eles, nada muda: é escândalo sobre escândalo. Suas opiniões, ao que me parece, são perfeitamente compreensíveis, afinal, quem, sendo minimamente decente, deseja sujar-se, envolver-se em assuntos pra lá de suspeitos, obscuros e confusos; coisas que não começaram agora, mas que vêm se arrastando sabe-se lá desde quando? Todavia, mesmo compreendendo aos meus amigos, não pude não discordar.

Para mim, esta é a exata reação desejada por parte daqueles que fazem da política uma terra de sujeira, um lodaçal de mentiras, roubos e hipocrisias: que o povo mantenha-se à distância, indiferente aos desmandos e sem-vergonhices que são prática corrente em nosso país. Mas não é só isso. Precisamente esta parcela da população, composta por meus amigos e por mim, os ainda jovens e esclarecidos, são aqueles que mais teriam condições de empreender uma lenta, mas gradativa transformação em nosso país. Em outras palavras, o desinteresse, a indiferença e, porque não dizer, a irresponsabilidade desta parcela da população é que consumará a devastação moral e política do Brasil por mais um século.

O jovem que hoje se interessasse por política teria que percorrer um longo e árduo caminho de estudo histórico, de afastamento das ideologias correntes, seja de direita ou de esquerda, teria que ter a sobriedade de parar e fazer um esforço no sentido de compreender a importância de suas escolhas e de seu comportamento enquanto cidadão de um estado democrático. Não somos indivíduos isolados. Somos indivíduos sociais. Nossas posturas, decisões, omissões transcendem a esfera de nossa vida e se estendem sobre a vida de muitos outros, tanto daqueles que nos rodeiam e são do nosso círculo de convívio, quanto a milhares de outros de quem nem ouvimos falar. E isso tanto é verdade que decisões tomadas por nossos compatriotas dos outros locais do país acabam por influenciar nossas vidas através daqueles que por eles são eleitos: nossas finanças são afetadas, nossa segurança é afetada, nossa saúde é afetada, nossa educação é afetada e assim por diante.

Assim como dificilmente resolvemos os problemas de nossa casa ao dela nos ausentarmos, mas, pelo contrário, os problemas lá permanecem até que nós retornemos e nos esforcemos por resolvê-los, assim também com o nosso país: de nada adianta virarmos as costas, esperando que alguém resolva. Colheremos os frutos de nossa omissão sempre que a plantarmos, lavando as mãos na irresponsabilidade. Os problemas nos aguardarão, por vezes até piorando de estado dependo do tempo que nos isentarmos indevidamente, e terminarão por nos engolir em um mar de injustiça social repleto de todos os tipos de violência. É preciso que tenhamos a coragem e o empenho necessários para, primeiro, nos desfazermos de nossos pré-conceitos a respeito deste assunto e, segundo, trabalharmos pela disseminação de uma luta contra a indiferença, contra a desinformação, contra as ideologias e a favor de uma adequada conscientização e responsabilização políticas.

Nossas vidas passarão, mas aquilo que decidirmos levianamente enquanto povo permanecerá repercutindo nas vidas de nossos filhos, netos e talvez até bisnetos. Não deixemos para a geração seguinte a tarefa que nos chega hoje às mãos. Tenhamos a coragem de nos esforçarmos por um país melhor, sem nos deixarmos abater por aqueles que se escondem dizendo que “de nada adianta”, pois um outro Brasil é possível, mas somente se fizermos o melhor com respeito à nossa parte.

Camila Hochmüller

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4 comentários:

CHICCO SAL disse...

Num momento em que as instituições políticas brasileiras são comandadas por homens e mulheres mais afeitas a Nicolo Maquiavel ou à Lei de Gerson, nem que fosse para homenagear os 500 anos de Calvino, os protestantes e neo-evangélicos deveriam reler o pensamento dele sobre o Estado, a laicidade do Estado, o papel de parceria da Igreja para com o Estado, finalmente ler sobre o papel político de cada crente/cristão.

Não dá para ser cristão sem ser reformista, não dá para ser sem defender, promover, ser agente de mudanças. E, certamente, uma das melhores maneiras para ser fazer mudanças é participar ativamente da Política.

Akamine disse...

Camila, não consigo mais entrar no seu blog. O wordpress pede um login, faço-o, no entanto, não consigo acesso ao blog. Gostaria muito de voltar a acompanhar suas bem cabidas reflexões, seria possível?
Muito bom o post! Falta-nos POLÍTICA.

Camila {Metamorfoseantemente} disse...

Akamine:
Eu estou meio aposentada dos blogs, por isso é que você não conseguiu acessar o meu. Eu o tirei do ar. :)
Um abraço!

Gustavo K-fé disse...

Não sei exatamente em quais espaços viria uma 'iluminação coletiva' capaz de trazer uma consciência desta necessidade de mudança política. E também, que motivação teria uma classe média para agir em prol de mudanças sociais?

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