12.12.09

Matem os comentaristas

A massa atual de intérpretes da Bíblia tem prejudicado, mais do que ajudado, o nosso entendimento dela. Na leitura dos acadêmicos, tornou-se necessário agir como se faz em uma peça de teatro, onde a profusão de espectadores e luzes impede, por assim dizer, nosso prazer da peça em si e, no lugar disso, somos tratados como pequenos incômodos. Para ver a peça, temos de ignorar essas coisas, se for possível, ou entrar por um caminho que ainda não tenha sido bloqueado. O comentarista [da Bíblia] se tornou um intrometido dos mais perigosos.

Se você quer entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário. Pense em um casal apaixonado. Ela escreve uma carta para o seu amado. Ele estaria preocupado com o que os outros pensam dessa carta? Ele não a leria toda sozinho? Colocando em outra forma, nem passaria pela sua cabeça ler essa carta com um comentário! Se a carta de sua amada estivesse em uma linguagem que ele não compreendesse, então ele aprenderia essa linguagem, mas certamente não leria a carta com o auxílio de comentários. Eles seriam inúteis. O seu amor por sua amada e a sua disposição de cumprir seus desejos o tornariam mais capaz de entender sua carta.

O mesmo se dá com a Escritura. Com a ajuda de Deus, podemos entender a Bíblia toda corretamente. Cada comentário retira algo, e aquele que se senta com dez comentários para ler as Escrituras estará provavelmente escrevendo o décimo-primeiro, mas certamente não estará lidando com as Escrituras.

Suponha agora que essa carta apaixonada tenha um atributo único: cada ser humano é alvo desse amor. E agora? Deveremos nos sentar e discutir o significado uns com os outros? Não, cada um de nós deveria ler essa carta individuamente, como se fora o único indivíduo que tivesse recebido essa carta de Deus. Na leitura, estaremos preocupados principalmente conosco e em nosso relacionamento com Ele. Não nos focaremos em detalhes como 'essa passagem pode ser interpretada dessa forma' e 'aquela passagem pode ser interpretada dessa outra forma', não! O importante para nós será agirmos o mais rápido possível.

Será que o amado não pode nos dar algo que nenhum comentarista pode? Pense nisso! Nós não somos os melhores intérpretes de nossas próprias palavras? Depois disso, [o melhor intérprete] é aquele que nos ama. E em relação a Deus, não seria o verdadeiro crente o Seu melhor intérprete? Não nos esqueçamos: as Escrituras são as placas de sinalização, Cristo é o caminho. Matem os comentaristas!

É claro, não são apenas os comentaristas que estão errados. Deus quer forçar cada um de nós a voltar ao essencial, para um início infantil. Porém não queremos estar nus dessa forma perante Deus. Todos preferimos os comentaristas. Assim, cada geração que passa fica ainda mais fraca.

O que realmente precisamos então é de uma reforma que coloque a própria Bíblia de lado. Sim, isso tem tanta validade agora quanto Lutero rompendo com o Papa. A ênfase atual em voltar à Bíblia tem, tristemente, criado religiosidade do aprendizado e dos sofismas literais – um desvio total. Esse conhecimento tem sido repassado de forma trágica para as massas de modo que ninguém mais pode tão-somente ler a Bíblia.

Todo nosso aprendizado bíblico tornou-se uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando se trata da vida, da obediência, sempre tem alguma coisa com a qual precisamos lidar primeiro. Vivemos sob a ilusão de ser necessária a interpretação correta ou termos uma crença perfeita, antes como pré-requisitos para começar a viver – isto é, usamos isso como desculpa para não fazer o que a Palavra diz. Leia +.

Søren Kierkegaard
tradução: Walter Cruz

7 comentários:

Culto Diferente disse...

Excelente...concordo com o autor: Matem os comentaristas!! principalmente aqueles que manipulam o texto para fortalecer doutrinas destruidoras e mentirosas, visando o Lucro de seus investimentos e a super-lotação de suas igrejas...tem como deus, seu próprio ventre!!!

Alzira Sterque disse...

Maravilhoso e real. Como sempre, vc pinçando ótimos textos de excelentes pensadores!!!!

Francisco Mário disse...

"O que realmente precisamos então é de uma reforma que coloque a própria Bíblia de lado."

Esse post com essa declaração implode esse excelente blog e demonstra falta de coerência lógica e filosófica ou falta de conhecimento, quem sabe!

Soren Kierkegard era existencialista. Por ser existencialista, ele tenta mostrar que a fé é um salto no escuro sem nenhuma objetividade.

Na verdade, Kierkegard entra em contradição quando ensina a passagem de Abraão para demonstrar o salto de fé. Ora, se a Bíblia é uma carta que cada um a interpreta, por que ele a usa com sua própria interpretação comprovar sua ideologia?

Depois, se o autor desse site concorda com esse texto, por que criticar alguns grupos como errados? Qual a razão desse blog? Cada um não teria o direito de interpretar a carta como quisesse? Por que criticar a oração dos "corruptos". Eles estão errados por quê? Eles interpretaram a carta da sua forma.
Para quem é inteligente, isso é patético!

Kierkegard erra em achar que a Bíblia é somente uma carta de amor. Não. A Bíblia é uma carta de amor, um alerta de arauto e um veredito de um Juiz. Portanto, penso que esse texto demonstra a decadência mais ainda da igreja brasileira. Os próprios críticos demonstram ignorantes de temas centrais da fé e da objetividade da revelação.

Gabriel Ferrão Moreira disse...

Eu não acho que Kieergaard está falando apenas contra os religiosos sofismáticos, mas contra todos que sacralizam os comentários imprimindo um pensamento do que se pode fazer em relação aos textos bíblico.
Entretanto, não seria a pregação da palavra ao outro , um tipo de comentário (ou interpretação)?
Não consegui sair desse problema.
Abraço.

Gustavo K-fé disse...

Até quando a elite vai continuar a ignorar o sujeito na hermenêutica?

Alexandre disse...

Nossa, perfeito. Onde assino?

O problema da igreja de hj. é ter parado na Idade Média e não compreender que "nenhum texto fala por si", mas é sempre dependente da inter-relação com o que lê.

Roger disse...

Kierkergaard... quem mais?

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