29.12.09

O romantismo idiota de "Avatar"

O FILME "Avatar", de James Cameron, é melhor do que "2012". "Avatar" também tem um ar apocalíptico, mas reúne elementos estéticos e de conteúdo mais elaborados do que "2012" e seu besteirol maia.

Mesmo assim, "Avatar" acaba sufocado por outro tipo de besteirol que é seu romantismo para idiotas: a fé no povo da floresta que vive em harmonia com a natureza. Nenhum povo vive em harmonia com a natureza. A diferença na relação com a natureza sempre se definiu pela maior ou menor capacidade técnica de cada cultura em controlá-la.

Os índios brasileiros que cá estavam quando chegaram os portugueses ("nossos libertadores") só viviam "em harmonia com a natureza" porque eram tão atrasados que nem conheciam a roda. Preste atenção: a relação com a natureza é de vida ou morte, ou ela ou nós. A expressão "lei da selva" não foi inventada pela avenida Paulista e seus bancos, mas sim como descrição da natureza e seu horror.

Isso não significa que não existam limites para a exploração da natureza, mas isso tampouco significa que exista uma coisa que seja "a doce Natureza". Serpentes e barbeiros (os besouros da doença de Chagas, não seu cabeleireiro unissex) e câncer são tão naturais quanto os passarinhos.

O romantismo é uma escola literária de peso. Último grande grito contra a vida brutalizada pela fúria mercantil, ele reúne uma crítica contundente ao capitalismo tecnicista e sua crença brega na ciência - "a ciência é o grande fetiche da burguesia", dizia o filósofo Adorno. Em "Avatar", o romantismo degenera em conversa de retardado.

Revolucionários românticos sonhavam com uma vida que recuperasse "valores pré-modernos" identificados com uma vida em comunidade onde as pessoas não seriam monstros interesseiros. O problema desses revolucionários é que "comunidade pré-moderna" não é uma comunidade de hippies legais, mas um tipo de sociabilidade onde o padeiro da esquina sabe que sua mãe é amante do padre, que seu pai é brocha, e que nem você nem ninguém têm pra onde ir. A idealização do que seria uma comunidade é uma das marcas dos idiotas utópicos.

Ninguém está disposto a abrir mão da liberdade individual moderna em nome de qualquer comunidade, por isso toda tentativa de "re-fundar" comunidades fracassa, apesar da admiração de muito pós-moderno bobo por culturas que não conheciam a roda. Não basta ter um filtro de barro em sua casa na Vila Madalena pra você conseguir viver em paz na comunidade da deusa natureza.

O filme se passa num planeta (Pandora) tipo Amazônia, onde existe uma enorme riqueza mineral escondida sob o solo coberto por uma floresta tropical cheia de "monstrinhos e plantas que ascendem ao toque das mãos", habitada por uma população linda de seres que muito se parecem com índios americanos. Pandora já remete à narrativa da "caixa de Pandora" e suas maldições.

O nome da raça que habita Pandora, os Na'vi, soa muito próximo da palavra hebraica para "profeta", "navi" ou "nabi". Os humanos gananciosos não são capazes de perceber como os Na'vi são seres em contato com a deusa cósmica. Os índios de Pandora são profetas da deusa.

O personagem humano principal é paraplégico, mas ao se tornar um Na'vi recupera as pernas: eis a metáfora da condição humana vista pelas lentes do romantismo degenerado.
Somos uns aleijados em comparação aos belos índios místicos donos da verdade cósmica. E qual é essa verdade? Que a natureza é um grande cérebro pensante e que devemos nos dobrar a ela porque assim a vida será bela.

Meu Deus, como ter paciência com esses aleijados mentais? Ninguém leu Darwin? Ninguém nunca observou a natureza de perto? Nunca sentiu o odor de sua violência? Numa cena, nosso herói escapa de uma fera. Esta mesma fera se oferecerá em seguida como montaria dócil para a heroína Na'vi a fim de combater os humanos gananciosos. Hipótese do filme: se um leão come a cabeça de uma mulher, isso é "bem cósmico", mas diante da ganância humana, ele se oferecerá como montaria dócil e fará discernimento entre sua crueldade "do bem" e a "maldade humana".

Noutra cena, na qual a heroína Na'vi salva o mocinho, ela dirá: "Eu tive que matar essas belas criaturas porque você fez barulho".

Moral da história: se você não respirar e não andar, a natureza o amará pra sempre. Caso apareça um porco capitalista, os leões virarão gatinhos. Só um idiota pensaria isso.

Luiz Felipe Pondé

8 comentários:

Mauricio C. Serafim disse...

Gosto do estilo provocador de Pondé. Este texto dá o que pensar.

Thiago Mendanha disse...

"Que burro, dá zero p/ ele"

Pandora não é um planeta é um satélite (lua) do planeta Polyphemus.

Fernando Toledo disse...

Lendo este texto me fez parar pra pensar: Então, como será o "novo céu e a nova terra?"

George Huxcley disse...

Avatar é um ótimo filme, só que paguei pra ver q as mulheres fazem homens cometer loucuras e que gostam do que tem o melhor carro.

Anesio disse...

Que cara mau humorado!
Já se esqueceu que brincou de carrinho na vida, que leu gibis, e ouviu contos de fantasia.
Fantasia é isso: dar liberdade pra mente humana criar os seus mundos.
Fico com o filme. Muito lindo!

gabzmoreira disse...

Esse panaca nunca leu Levi-Strauss.Aliás, falecido ano passado.

gabzmoreira disse...

No filme essa relação natureza - homem não é tão maniqueísta - inclusive eles não eram vegetarianos, mas demonstravam respeito pelo que matavam. Cacilda! Esse cara tem que ler o texto Raça e História proferido por Claude Levi-Strauss numa conferência da ONU em 1970. A "humanidade" tem várias histórias, nem todas foram iguais a que hoje infestou todas as sociedades humanas (ou quase).

Sirvo disse...

Eu "gosti" muito do filme!!!

Eu determinada hora do filme senti uma forte impressão de como será a vida na Nova Jerusalém que desce dos céus, sendo Deus e o Cordeiro a própria fonte de luz e vida dos santos, sendo servidos pelo rio que brotará do Trono do Senhor!

Além disso me lembrei de um filme, muito antigo que assisti onde uma tribo, após abaterem um animal faziam uma breve oração sobre ele, pois respeitavam a vida ("Os deuses devem estar loucos").

Ratifico o "que burro, dá zero pra ele", Pandora é uma das "luas" de outro planeta.

Achei o filme fantástico e acredito que a harmonia dos viventes juntos a Deus no Seu Reino será uma comunhão tal, a ponto de todos se sentirem um, como Cristo mencionou. E o filme me "catapultou" a pensamentos nesse sentido.

Por outro lado o filme parece fazer alusão a idéia antiga de que "os deuses eram astronautas", onde as divindades nada mais seriam do que seres evoluídos de outros "planetas" que, utilizando nosso DNA, se fariam como nós para repassar mensagens "daqueles que vem do céu".

Entendo isso como uma "preparação" para a manifestação da "operação do erro", antevendo o que os poderes demoníacos planejam para a negação do Senhorio de Cristo e o advento do anticristo - que viria com todo tipo de "poderes e maravilhas" para enganar quem tivesse rejeitado a verdade de Deus!

Deixando os aspectos escatológicos do filme, achei a produção fantástica e com um ritmo muito interessante!

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