8.1.10

Dica de classe média: Ficar chocado quando um rico morre tal qual um pobre


Um bom método para identificar a prática do médio-classismo, consiste em analisar a reação de uma pessoa a notícias sobre morte. Neste caso, consideremos as situações onde tenha morrido alguém sem ligações afetivas ou sociais com o analisado, aquelas mortes de desconhecidos que a televisão sempre noticia.

A época da estação das chuvas, conjugada ao período das festas que vai do natal ao carnaval, é muito propícia para a prática dos métodos de identificação de médio-classista. Com ela vem a certeza de que muita gente vai partir do mundo dos vivos, nas grandes ceifadas sazonais que a Dona Morte promove durante estas datas, seja via acidentes nas estradas, deslizamentos de encostas, enchentes ou coisas do gênero. Quem quer realmente aprender a ser da Classe, que tome assento e tome nota quando perceber um médio-classista assistindo às notícias do temporal no jornal da noite.

Fundamentalmente, na ótica da Classe Média, tais fatalidades podem ser classificadas em dois tipos: a “desgraça”, algo corriqueiro e inerente à existência dos pobres e favelados, e a “tragédia que abalou a família brasileira”, que, grosso modo, vem a ser uma “desgraça”, mas com rico no meio.

A desgraça é um evento com o qual o médio-classista lida muito bem. Pobres morrem o tempo todo, das mais variadas formas. Isso é normal. Está tudo bem, desde que não seja durante o expediente ou na véspera da faxina. Mas atenção: a Classe Média tem coração. Quem quiser praticar um pouco de médio-classismo durante a cobertura televisiva de uma desgraça, deve separar meio minuto do seu dia para sentir pena. Depois, é só voltar ao que estava fazendo.

A tragédia que abalou a família brasileira, por sua vez, é algo capaz de indignar profundamente a alma dos classistas. Consiste na morte de um rico (ou mesmo um médio-classista respeitado em seu meio) em circunstâncias em que normalmente só morreriam pobres. E não interessa se o morto era conhecido ou não. A Classe tem o sentimento de bando, e uma baixa dessa natureza costuma deflagrar um luto, mesmo que contido, em pessoas que nem sabem o nome completo da vítima. Mas quando o falecido é alguém muito mais rico (porque Classe Média não é rico), o sentimento é mais forte, afinal, qualquer pessoa que seja mais rica que um médio-classista, é considerada por este como um semi-ídolo.

Contudo, algo que vai além disso incomoda muito o cidadão da Classe: ter o mesmo fim que o pobre. Pior mesmo é se for por um motivo tradicionalmente utilizado pelos pobres. A permanência em vida não é algo exclusivo, não dá pra fazer disso um clubinho só pra ver os pobres do lado de fora, assistindo Amaury Júnior e sonhando em entrar um dia. A condição de mortal faz todo mundo, em última instância, ser igual, não interessa se a tela mágica da sala de estar só mostra vídeos, fotos e depoimentos a respeito de alguém que a Classe considera um dos seus. (Queriam o quê? Que o aparelho sagrado ficasse perguntando a opinião dos pobres que sobreviveram?) Talvez por isso, por essa falta de reconhecimento à importância do médio-classismo praticante, morrer seja considerado pela Classe uma tragédia tão trágica, sem o perdão da redundância.

fonte: The Classe Média Way of Life

3 comentários:

Alzira Sterque disse...

Enoja-me a postura do blogueiro que escreveu isso. Diante da morte de ricos, pobres, haitianos, africanos não deveríamos perder algo essencial: o respeito. Prefiro guardar comigo a ética do silêncio, a compaixão de Cristo... o resto é lágrimas.

ricardo disse...

Lamento discordar das opiniões contrárias, mas o texto fala a verdade. Se respeito se traduzir em comoção nacional, não se respeita a morte de pobres, pretos, favelados, africanos, nordestinos, etc.

Infelizmente observamos que muitos se condoem da dor do branco, do sobrenome complicado, do bon vivant e da patricinha mas torna-se imcompassível com a dor do pobre, preto, favelado.

Abordei este fato curioso da opinião pública (que a mídia mostra) em um post antigo do meu blog, falando de dois assassinatos que aconteceram em Brasília, o da Balbina Alves da Silva e da Maria Cláudia Del'Isola, dois crimes horrendos mas que apenas um comoveu a sociedade brasiliense (medioclassista).

Segue os links:

http://ricardoemprosa.blogspot.com/2007/11/pretos-tambm-sofrem-pobres-tambm-morrem.html

e

http://ricardoemprosa.blogspot.com/2007/11/anexo-ao-pretos-tambm-sofrem-pobres.html

Gilberto Junior disse...

As notícias estão aí, enquanto no morro da carioca em angra só mostraram os corpos dos pobres sendo carregados, os "pseudo-ricos" da pousada eles fizeram questão de entrevistar todos os sobreviventes.
E só se falava na menina linda filha dos donos da pousada, lamento a morte dela tbm, mas com mesmo peso que lamento a morte qqr um. Mídia hipócrita, o post está perfeito.

Agora me acontece esta tragédia no Haiti, e todo mundo já esqueceu de Angra, Baixada Fluminense e São Paulo.

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