26.1.10

Vai em frente, Dilma, saravá

Quando estávamos terminando o curso de Direito, no Largo de São Francisco, em 1963, criou-se, como de praxe, uma Comissão da Formatura. Naquela época, eu já não era um presbiteriano ativo e me debatia com as dúvidas que me levariam à descrença, principalmente depois da IPB ter tomado o partido dos militares.

Era um ano politicamente quente com os grandes debates das reformas de base, e a passagem pelas Arcadas de Leonel Brizola com seu verbo inflamado respondendo às acusações levantadas contra Jango pelo líder udenista Carlos Lacerda.

O mais importante era talvez a crença, entre os jovens, de que se podia mudar o mundo, por isso cada um de nós (não sei se mantenho esse comportamento do passado) estava sempre pronto a entrar numa trincheira, mesmo sem armas, para defender idéias de igualdade social, de combate à miséria com todo o ardor da juventude.

Ora, vez ou outra, nos intervalos das aulas (eu fazia o curso noturno), apareciam os membros da Comissão de Formatura para contar como iam organizar nossa festa, quanto poderia custar, onde ia ser o baile e como deveríamos pagar nossa parte. E numa dessas noites, fomos informados sobre a missa da formatura. Eu, pessoalmente, nunca imaginara que, numa Faculdade de Direito pública da USP, pudesse haver missa numa festa de formatura.

Pedi informações, e me foram dadas: era praxe (meus colegas advogados têm uma atração por palavras desse tipo e mantenho o original) os formandos pedirem a celebração de uma missa. O arcebispo já havia sido contatado e a missa seria na prestigiosa Catedral da Sé. « Mas vejam, respondi, nós estudamos numa faculdade pública e isso me parece um tanto estranho ».

- Mas é a tradição, me responderam. Ora, como nas Arcadas de São Francisco a tradição imperava, parecia muito normal mantê-la, mesmo se ao arrepio do princípio da separação da Igreja do Estado. Leia +.

Como tenho um espírito de provocador (meus leitores já devem ter notado), perguntei como se faria com os protestantes (naquela época não se falava evangélicos), com os ortodoxos e com os judeus (não havia muçulmanos naquele grupo).

- Faremos como vem sendo feito (era de novo a tradição): os cultos não católicos terão o convite em separado e os formandos não católicos entregarão o convite da formatura com a separata aos seus convidados. No convite oficial só constará a Missa.

Como tenho o pavio curto, me levantei do lugar em que estava, no grande anfiteatro, e despejei tudo quanto pensava sobre esse desrespeito aos colegas de outros cultos e essa visão distorcida do direito de livre culto justamente por estudantes de Direito. Virou um enorme bate-boca com a intervenção de outros que passaram a me apoiar, no meio da reação de católicos que se consideravam insultados com a petulância de se querer quebrar uma velha tradição arcadiana.

O professor apareceu na porta, era hora de começar a aula, a discussão parou ali, mas de volta à minha República redigi um texto para abaixo-assinado e, já na manhã seguinte, fui ao curso diurno, expliquei aos colegas o incidente e pedi assinaturas. Em alguns dias, as assinaturas encheram duas ou três páginas, porque mesmo católicos, futuros advogados preferiam o respeito à laicidade que o privilégio de um culto sobre os outros.

Para evitar uma perda do abaixo-assinado, pedi a um colega fotografar com flash a entrega do documento ao presidente da Comissão. Para encurtar, o responsável pela Catedral da Sé informou que só haveria missa naquela igreja, se a cerimônia constasse no convite oficial e sem a presença de outros cultos religiosos. E, finalmente, todos os cultos de ação de graças inclusive a missa acabaram em convites em separado, como manda a laicidade.

Conto esse episódio para enfatizar, como não religioso, que todos os cultos e religiões devem ser livres em termos iguais. Hoje no Brasil, segundo denúncias feitas ao Comissariado de Direitos Humanos em Genebra, estão se registrando casos de ataques e violências contra umbandistas por evangélicos. Li, no caso do terremoto do Haiti, ter havido absurdas declarações de líderes evangélicos nos EUA e talvez no Brasil de ter sido um castigo de Deus ao paganismo haitiano.

É fato notório que nem todas as religiões são adeptas do ecumenismo e que chegam mesmo a insuflar o ódio e a guerra, como acontece hoje em alguns países e como aconteceu no passado com as Cruzadas e Isabel da Espanha, sem se esquecer a Inquisição. Por isso, o nosso moderno Estado de direito precisa estar atento a fim de evitar privilégios religiosos, perseguições ou desigualdades.

Os terreiros de umbanda são uma realidade no Brasil e devem gozar de todo direito das outras religiões. No Senado Federal, havia, não sei se foi aprovado, um projeto de lei restabelecendo o ensino religioso católico nas escolas em lugar de um ensino opcional das religiões em geral, como ocorre aqui na Europa, tais preferências e deslizes devem ser evitados.

Arthur Clarke, o autor do livro 2001, Odisséia no Espaço, levado ao cinema por Kubrick, previu um mundo futuro sem religião, mas enquanto não chegamos lá, é preciso se respeitar todos os cultos. Se Dilma acha que, por questão eleitoral, não deve reconhecer agora o direito dos terreiros de umbanda, não pode esquecer de fazê-lo nos seus primeiros meses de governo.

Rui Martins, no site Direto da Redação.

2 comentários:

Charles A. Müller disse...

Creio que além de episódios tristes das religiões como a Inquisição e as Cruzadas, devem ser lembrados os episódios tristes do laicismo como a perseguição sangrenta aos cristãos atrás da Cortina de Ferro (URSS e aliados), que ainda ocorre na China. Vide livro "O contrabandista de Deus", do Ir. André.

Em nome do "Estado laico" tenta se suprimir algo que está na cultura e essência de um povo. Sua fé. Primeiro retira-se os símbolos de locais públicos. Depois proíbe-se citar textos religiosos (Bíblia, por exemplo) em público ou na mídia. Depois proíbem as reuniões e os templos. Depois... paredón. Na antiga Alemanha Oriental chegaram a substituir a Confirmação (ritual em que adolescentes afirmavam sua fé cristã) por uma cerimônia cívica laica e pomposa, em que os jovens afirmariam sua fidelidade ao regime comunista materialista.

Sou protestante e minha formatura também teve missa católica. Foi numa data e local separado da colação de grau, cuja presença era opcional. Expliquei aos colegas que não iria, simples assim. Aliás, meus colegas, na maioria católicos "no papel" (não-praticantes, só vão às missas quando alguém casa, morre ou se forma) só consideravam o evento como mera formalidade.

Concordo que convite em separado seja a melhor opção. Só não acho que uma reação raivosa como essa seja louvável.

Mesmo não sendo católico, não vejo nada de errado num sacerdote (padre) abençoar os formandos. A bênção só é válida para quem nela acredita. O que em nada ofende quem não professa a mesma fé.

Não temo religiosos que, diante de sua fé, promovam seus ritos intercendendo às suas divindades em prol de sua nação. Temo sim gente raivosa, que subverte o princípio democrático, para impor um Estado laico "goela abaixo" como este articulista Rui Martins e seus inspiradores como Marx e Stalin.

Valerio Márcio disse...

Lamento profundamento TODO o conteúdo do post acima. Ora lamento porque concordo com o que está sendo dito(como em relação à perseguição de quem quer que seja), ora lamento por que o autor se equivoca na forma de se posiconar com relação às crenças.

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