27.3.10

A irremediável burguesia religiosa

Se não me falha a memória, a frase é do Cazuza. “A burguesia fede, mas tem os seus encantos”. Pela classificação mais ordinária dos cidadãos brasileiros, nasci na classe “C”, isto é, no andar de baixo desta burguesia. Designado para viajar nos vagões mal cheirosos que ficam atrás do trem, minha infância não teve tantos mimos. Cresci sem automóvel (eu tinha 17 anos quando papai comprou um carro), sem frequentar lanchonete nos fins de semana e sem vestir roupa de grife. Não, nunca fomos pobres; tínhamos segurança alimentar e uma grande família com tios que chegaram junto na hora do sufoco.

Mas, para entrar no baile de adolescente na vesperal do Clube Náutico, eu precisava pular o muro; para chupar um picolé no intervalo da aula, tinha que ir para o colégio a pé e para comer maçã, adoecer.

Tornei-me um militante do patético alpinismo social. Em meu primeiro emprego, fixei a meta de comprar um fusca. Trabalhei como um remador de galé, mas um ano depois saí da loja montado nas quatro rodas alemãs - e mais trinta e seis prestações. Daí para a frente, continuei subindo. Cheguei ao mundo colorido da classe “B”. Eu já não era um remediado pobretão. Cedo, também notei que as escadas religiosas poderiam me conduzir a patamares mais elevados.

Gastei a maior parte dos meus dias entre cristãos que faziam da religião o trampolim social que a sociedade lhes negava. Eu sabia que a lógica religiosa que eu aceitava de bom grado, e fortalecia, servia às aspirações de pequenos ricos.

Primeiro, nos Estados Unidos. Viajei extensivamente por quase todo o território e conheci a América profunda. Preguei tanto em igrejas grandes como em bibocas. Evitei, por interesse, notar como os pentecostais se esforçavam para mostrar que não eram os primos pobres de batistas e presbiterianos. Por duas vezes, participei do Concílio Geral das Assembleias de Deus. Não há como descrever o desfile das vaidades que vi nessas reuniões. Pelos corredores lotados com mais de quinze mil pastores, mulheres borradas de maquiagem ostentavam roupas caras e os maridos batalhavam para ganhar a placa de “Maior Contribuinte de Missões Mundiais ”.

Depois que voltei ao Brasil, também procurei cegar para o que via. Eu não queria notar como líderes denominacionais usavam de toscas manipulações para se manterem temidos como caudilhos. Pastores oriundos das mesmas camadas sociais que eu, se sentiam desafiados a passar pelo malho apertado da peneira social. Alguns, logo revelavam sinais exteriores de riqueza, fama, glória. Isso lhes motivava à luta e eu, confesso, queria ser como um deles. Os ungidos apareciam ao lado de políticos famosos, viajavam para Israel, abriam postos missionários além-mar.

Paulatinamente, distanciei-me desse mundo que passou a imprimir cartão de visita com o titulo de Apóstolo. Depois, com as mega-empresas religiosas, quando o cacife cresceu, e eu decidi sair de vez. Os verdadeiramente ungidos passaram a desfilar de BMW, helicóptero e jatinho. Resolvi não desejar esses brinquedinhos que patenteiam a bênção de Deus.

O mundo evangélico está contaminado por esta espiritualidade pequeno-burguesa. Animado pela lógica de que servir a Deus é proveitoso, o crente parte em busca do macete que abre porta de emprego, faz passar no vestibular, resolve causas na justiça, ajuda nos concursos públicos e aumenta salário. Para ele, a prova de que Deus existe está nesses pequenos milagres; e o melhor testemunho da verdade da fé, na capacidade de mover o braço do Todo-Poderoso.

Quase fui linchado quando afirmei, em um estudo bíblico, que Deus não abre porta de emprego.Sofri crítica por dizer, baseado no Sermão da Montanha, que Jesus ensinou aos filhos de Deus a não pedirem coisas materiais. A princípio, não entendi a reação virulenta. Por que tamanha resistência à proposta de espiritualidade que abre mão das intervenções divinas para se dar bem na vida? Mas, quanto mais eu lembro das ambições que povoaram o meu coração juvenil, dos corredores enfatuados daquelas convenções americanas e da breguice dos evangelistas novos-ricos, reconheço: não se desvencilha com facilidade das orações milagrosas que prometem os encantos da burguesia, sem feder.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

11 comentários:

Claudia disse...

Olha sei que vou soar tonta com meu comentário, mas é fácil falar que é patético o tal alpinismo social depois que você já está bem de vida. Se eu fosse o Ricardo me orgulharia de ter conseguido com o trabalho sair da pobreza mas continuaria me envergonhando de ter ido atrás de crente. Ser pobre é ruim e só quem é sabe.

Vinicius disse...

Claudia, não está soando nada tonta, concordo plenamente com você.

Charles A. Müller disse...

Concordo com a Cláudia. E acrescento. É certo que não devemos procurar a Deus somente para que nossas necessidades e ambições sejam atendidas. Mas é certo que Deus não fica feliz ao ver o sofrimento de seus filhos quando em momentos de privação e que Ele é pai, que nem sequer aos passarinhos abandona, quanto mais a nós.
Não conheço este senhor Ricardo Gondim, não cabe aqui julgá-lo. Mas sei que ele é "famosão" assim como aqueles que ele critica e é lider de uma "grande e famosa" congregação. Acredito no discurso dele SE:
- Dirigir um fusca (ou outro carro popular) para se locover e manter uma casa própria, doando TODO o restante de seu patrimônio aos pobres. Isso seria a compensação por essa "vida de alpinismo" de um passado que ele se envergonha (seguir o exemplo de Zaqueu).
- Viver com 2 salários-mínimos (ou sem salário, que a igreja o supra de suas necessidades básicas) aplicando todo o excedente em evangelização.
.
Daí sim, somente assim, Sr. Ricardo Gondim, quem sabe seu discurso tenha credibilidade.

Rodney Eloy disse...

O irremediável Ricardo Gondim

:-)

Anônimo disse...

Caraca, veio! Vcs não captaram o que o Gondim tentou comunicar sobre a mecânica da religiosidade dos evangélicos. Aproveitaram para criticar o cara e perderam o sentido do que ele quis dizer. Assim também naum dá.

Gi disse...

Entendi o sentido do texto e agradeço por ele.
Também concordo com você,deixo
para o senhor esse verso que
está na capa da minha agenda.

"Sê como a árvore do sândalo, que perfuma até o machado que a corta." Rabindranath Tagore

Anônimo disse...

_ antes de mais nada: NAO SOU SOCIALISTA

Na verdade, uma verdadeira sociedade cristã não é exploradora. A pobreza deve ser digna, ou seja, você ter acesso à educação, saúde, segurança publica, transporte, lazer etc.

No cristianismo atual, o link entre sociedade e cristaos resume-se a marchas, nome de ruas, placas, dia da marcha. Me ajudem, o que mais?

me digam uma coisa decente que o pastores-politicos fizeram? eu nao posso me lembrar de uma? algo relacionado com justica social? eu lembro das placas e de defesa moral etc.

O ideal eh q os cristaos organizados pudessem ser instrumento de justica social, pois justica é parte do Reino, sim! (momento campanha: marina silva eh crista e respeitada pelos de fora, q beleza, hein?)

aos criticos, eh justamente por esse "chegar lá", q ricardo ficou apto a criticar. acho q nao eh uma critica a se desenvolver, isso eh importante, mas eh uma critica sobre fazer disso meta de vida, como sinonimo de vida com Deus, como termometro espiritual.

gente, olhem p moises e elias com os olhos carnais, esses caras eram os maiores fracassados de seus tempos. moises largou td e nao entrou na terra, elias foi defender o qera correto e foi chamado de "perturbador" etc.

Esse texto é fantaaaaaaaaaastico! fazia tempo q nao lia algo tao bom, de verdade!!!!!!!!!

parabens ao gondim!!!!!!!

Romulo disse...

O render-se ao Senhorio de Cristo e a expansão de seu Reino,devem ser nossas metas. O progresso material advéem de esforço, trabalho, honestidade e atualização constante! Não conheço fórmulas ou poções mágica para o sucesso, tampouco bíblia nos ensina qualquer '' atalho '' ou caminho para isso!

Anônimo disse...

Triste é ver que poucas pessoas entenderam o que Ricardo Gondim escreveu neste texto.
É por isso que ser evangélico no Brasil é sempre sinônimo de um povo que só busca crescer financeiramente e aumentar a sua distância de Deus.
É por isso que neste país crescem os Valdemiros, os Hernandes, os Soares, os Macedos e tantos outros mercenários da fé. O povo gosta. Cada evangélico vive a fé que merece.
Que tristeza!

Marcos Roberto

Anônimo disse...

Vivo nos EUA a vinte anos e sou ex-cristao. Passei pela a maior parte do que o Ricardo passo. Ou seja, fui a igrejas grandes com gente bem vestida e de carros luxuosos. Tambem cri em deus por bens materiais apesar de levar o evangelho a serio. Depois de ter mudado de igreja tres vezes porque duas delas, pastores estavam robando, parei de ir. E facil pra pastores e suas famlias dizer que deus provera cuando eles recebem todo o dinheiro. Os evangelicos acham que so porque tem um carro novo ou casa nova que jesus existe, cuando fatos historicos, ciencia, logica e o universa prova que o evangelho e a biblia e pura mentira.
A 3500 anos atras a historia de um homem-deus nascido de uma virgem, que teve discipulos,fez milagres que morreu e ressucitou depois de tres dias esta escrita nas paredos do templo de Luxor no Egito sobre o deus do sol Horus, que tambem foi um mito. Religiao cause mais morte, problema e discriminacao do que traz paz. Tudo isso porque as pessoas tem medo de ir ao inferno, que nao existe and medo de perder bens materiais.

Daniel Graco disse...

Pobreza parece doença, as pessoas acham que se pega, por contagio, e que a cura de Deus as sarará. Probreza é uma condição social, condição que leva em conta muitos fatores: falta de formação acadêmica, problemas econômicos, etc.. A pobreza não se passa como uma doença, ela pode ser recorrente, se certas condições se derem. O que muitos evangélicos acham que podem estar imunes a tal situação se forem merecedores da graça de Deus. Se Jesus não tinha onde dormir, porque aspiramos por mansões?

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