4.1.08

Philip Yancey entre muros

Ah, que divertido! Chego hoje das minhas aulas e leio a mensagem de um amigo com um link de blog: "Vai lá ver." Era o blog do Pavarini, de quem apenas recentemente havia ouvido falar. Slogan: "Sal da terra, com um pouco de pimenta." Hum. Encontro então, no dia 2, um post inteirinho em minha homenagem. Não era nenhum tipo de análise do que escrevo, como fiz com a dupla Kivitz & Gondim. Era uma simples colagem, nem de post nem de trecho de post, mas de um comment meu, rápido e despretensioso, sobre aquele autor "de que tenho horror", Philip Yancey.

Ao que me consta, é um post natimorto. Meu texto é infeliz para um post inteiro, porque não explica as coisas - por isso, no meu blog, estava em seu devido lugar, em resposta espontânea a um leitor. Já no Pavablog, os comentários ao meu comentário são mais infelizes ainda, uma coletânea de pequenas gracinhas misóginas e pouco adequadas, feitas em sua maioria sob a proteção mui adequada do anonimato. No entanto, o ibope do post é alto: em uma média geral de 0,0000001 comentários (pois a maioria dos posts mostra o contador desalentadoramente zerado), minha singela observação, feita para jamais alcançar os pódios de um assunto principal, angariou até agora 10 manifestações. Convenhamos: para a média do blog, é um número altíssimo!

Agora, depois da diversão, eu me alongo aqui sobre o caso que gerou tamanha avalanche no blog citado: Yancey, afinal. Aos que ainda gostam do cabra, convém mesmo uma explicaçãozinha, porque eu também gostava dele. Li Maravilhosa graça há uns seis anos e me engasguei de tanto chorar. Na mesma época, li Perguntas que precisam de respostas e achei apenas interessante, mas ainda assim presenteei uma amiga com ele. Comecei a ler Decepcionados com Deus logo depois e foi uma experiência esquisitíssima: parecia ter sido escrito por um descrente. Não terminei o livro, não funcionou comigo. Mesmo assim, Yancey ainda era um autor do meu panteão - digamos, em um degrau inferior ao de muitos outros, crentes e não-crentes; afinal, Yancey é um jornalista generalista assumido, e dificilmente se encontrariam nele a mesma profundidade e a mesma erudição de um Calvino, de um C.S. Lewis, de um Jonathan Edwards, de um James Houston ou de qualquer articulista da excelente Fides Reformata.

Mas a minha aversão começou quando, ainda leitora da Ultimato (sim, porque um dia fui esquerdista, meio universalista e meio condescendente com certos pecados - ou você achou, leitor, que até agora no blog eu estava condenando o que não conhecia de bem perto?), prestei atenção no teor de cada cronicazinha de Yancey na última página da revista. Na época, eu já tinha começado a travar contato com escritores conservadores e compreendia algumas diferenças importantes: de um modo geral, enquanto os autores de esquerda costumavam falar de seus próprios assuntos sob uma linguagem peixe ensaboado, mais ocultando que esclarecendo, os textos conservadores traziam uma transparência que, para mim, contou como uma aliviadora honestidade textual. Esse foi o primeiro choque. Para o segundo, contribuiu o autor de Maravilhosa graça: enquanto as críticas conservadoras se concentravam nas idéias e em suas conseqüências, calcadas em fatos e argumentos, os textos de Yancey primavam pelo mesmo tipo de maldade difamatória que funciona como um tijolo no muro do mainstream esquerdista, um muro que procura isolar o ortodoxo e o tradicional das vistas públicas, construído conscienciosamente pelo poderoso lobby moderno de esquerda. Insultos blasés, todos de viés, vinham mesclados a um constante tom enraivecido a cada texto do obcecado articulista de Ultimato e Christianity Today - que, de modo inteligente, achava sempre um jeito de encaixar em qualquer assunto as batidas de seu martelo antifundamentalista. Longe de apontar erros reais, esse procedimento apenas deixava evidente a própria amargura do autor. Aos poucos, Yancey perdeu-me em definitivo como leitora: os "fundamentalistas" americanos que eu conhecia não se encaixavam de modo algum em sua macabra descrição, e essa injustiça me pareceu algo muito impróprio de alguém que se apresenta publicamente como filho de Deus. Isso, para mim, é "viver falando mal da igreja" em vez de amorosamente, como o apóstolo Paulo, oferecer-se para consertá-la.

Não posso aprofundar aqui a crítica textual a Yancey porque não disponho mais daqueles artigos de Ultimato. Estava prometendo a mim mesma que enveredaria por esse assunto, um dia, quando estivesse com mais tempo livre para pesquisar. Do que posso dizer por enquanto, é certo que Philip Yancey dedica-se conscientemente a destruir a imagem da igreja americana conservadora. Tudo indica que, com bastante discrição, também busca promover valores modernosos antibíblicos, tanto nos EUA como no exterior. Afinal, foi Yancey quem trouxe para o Brasil o autor Brennan Manning, que, segundo autores cristãos como Andy Comiskey, apóia a causa gay abertamente, dentro da igreja, negando ser o homossexualismo um pecado. Isso corrobora o suficiente minha aversão: enquanto empareda irmãos comprometidos com verdades bíblicas, Yancey deixa vazar secularismo à vontade do outro lado.

fonte: blog da Norma Braga

16 comentários:

Ricardo [DIVERSITÀ] disse...

Me pergunto tantas vezes aonde vai parar o mundo "conservador" sem um segundo de humanidade sequer no seu tempo dedicado às "grandes colunas da fé".

Yancey e Manning demonstram problemas com a temática homossexual? Podem ter, não sei.

Conversavadores tem problemas com o diferente, o novo? Sim. E isso pra mim é uma falha tão grande quanto a anterior.

Talvez a grande preocupação destes últimos seja o fato de que Yancey e Manning vendem livros demais. Assim, acaba sendo perigoso o "pecado" de lá ser mais divulgado.

Talvez os conservadores brasileiros, tão apaixonados pelos grandes nomes "reformados" americanos não saibam que:

- Boa parte dos pastores "tradicionais" americanos já não acredita que Jesus realmente ressucitou. Pra eles, isso deixou de ser vital para o ensino da fé.

- Boa parte dos pastores "tradicionais" americanos continuam aprovando o jeito bush de ser: faço, faço, faço...se der errado, problema m...ops, problema seu! (se bem que isso já deixou de ser problema somente dos tradicionais, basta conferir o documentário Jesus Camp).

E aí fico feliz em saber que a galera mais recente, interessada em Manning ou Yancey, entende que, a questão aqui é que todos somos pecadores em construção (como é importante essa palavra). Parece que os conservadores estão pouco interessados nisso - quanto mais pompa, melhor. Generosidade é coisa do passado, a moda agora é ser ortodoxo ultrapassado.

Enquanto existe um possível problema sobre homossexualidade em Manning e Yancey, eles, ao menos, continuam afirmando: já cansei de cristianismo sem humanidade, que se propõe muito mais à eKKKlesia (sim, no sentido de organização burocrática, fajuta e sem respiração) do que à vida, ao coração, ao maltrapilho.

A questão aqui não é estar entre o certo e o errado. É estar ligado no princípio do "eu estou em construção". É claro que o principal argumento será: mas então eu vou tolerar baboseiras e ficar calado? Claro que não! Mas custa, será que custa muito, ao menos ser menos odiosamente prepotente nas palavras?


Ricardo Oliveira

Raphael Rap disse...

Prepotência foi realmente a primeira palavra que veio a mente quando li o texto da Norma... no entanto foi somente uma palavra, não ainda uma constatação...

Eu fico meio abismado como nós humanos somos, se rotulamos alguém como defensor de algo que somos contra, logo nada sai de bom da boca daquela pessoa...

Não é pq Manning é católico ou defende o homossexualismo que ele não fala coisas verdadeiras...

Não é pq o Gondim apoia a teologia relacional que ele não fale nada que preste...

Não é pq o DT é muito ruim que tudo que eles falam seja perdido...

Devemos sim estar lutando contra falsos apóstolos, falsos mestres, mas combatendo as falsas doutrinas e os falsos ensinamentos, antes de matar as pessoas como fizeram em muitos eventos da nossa História.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dos dois lados do Equador disse...

Quando leio determinadas coisas na Net (ontem peguei-me com esse pensar) vem-me a mente o quanto os evangélicos esqueceram a Fé, a Graça e o Amor onde destes, o maior é o Amor.

Lembrei o quanto é importante para eles que os pensamentos estejam bem embasados, que a moral seja correta, que a mensagem seja (muito bem) estudada (que o diga aquele famoso pregador inglês - desculpe-me a memória... - que escreveu um livro para pregadores, que li, diga-se de passagem), que o pecado (do mundo) seja denunciado, que o homessexualismo (pobres fundamentalistas, pois escondem que a palavra "homossexualismo" não existe sequer na bíblia) seja contra-atacado.

Brigam não pela fé, mas pela letra. Atordoam-se não pelo ser humano mas pela correção. Esbofeteiam-se não contra os falsos pregadores mas por uma correta moral. Matam-se não pela prostituta, pelo pobre, pelo homossexual (aqueles grupos pelo qual Jesus, aqui na Terra, demonstrou apreço) mas sim pelo biblicismos que julgam ipisis literis. Enfim suas brigas são tolas e demoníacas.

Não pregadores da Graça, mas da Lei. São insensatos.

Enquanto isso a Universal continua distribuindo rosas ungidas e fazendo com que seus fiéis passem por debaixo de uma porta sob a mentira de que, assim, estão ultrapassando uma porta cuja tipologia é Jesus, A Porta. Mas não houve e não há luta contra isso. Leia-se esses revistinhas de Defesa da Fé e não haverá uma vírgula sobre. Perderia-se voto, dinheiro e ganharia-se um inimigo de peso.

No mais, é de fato uma pena.

No caminho onde a Graça é nossa única regra, onde o Amor é nossa ùnica Lei e onde a Fé só o é se for no salto no escuro e não numa letra supostamente iluminada, contudo morta porque sem espírito.

Bjão,

Vando

Anônimo disse...

Philip Yancey articulista da Ultimato, a revista "esquerdista"? Tsk tsk tsk

Em caso de lapsos de memória frequentes seria bom uma pesquisa prá não levar os leitores ao engano.

P. Yancey escrevia na última página da revista "Enfoque" dividindo espaço com Rick Warren. Será a Enfoque tambem esquerdista??? Deixa o deputado Arolde saber disso!!! kkkkkkkkkkkkk

Priscilla disse...

Sempre acho essas discussões boas, mas quanto mais participo de uma delas, mas percebo o quanto levamos as coisas para o lado pessoal, como se nós mesmos fôssemos o ofendido? Me pergunto, por quê?

Mas, algumas coisas eu queria comentar também. Yancey já me abençoou em dois momentos de grande crise que tive. O primeiro foi quando li Decepcionado com Deus,enquanto passava por um problema sério em minha família. A segunda vez foi quando li Alma Sobrevivente, que me ajudou a permanecer dentro da igreja local, e entender, não que ela é imperfeita, mas que EU sou imperfeita, e por isso ela é imperfeita.

Me parece que se levantar contra Yancey porque ele apóia isso ou aquilo, ou a favor dele, pelos mesmos motivos são duas faces de uma mesma moeda. Opinião é direito de todos, claro, e eu sou a favor da liberdade de expressão 100%, mas os dois "lados" acabam se assemelhando muito mais do que se diferenciando.

Só mais uma coisa: "homosexualismo" não está na bíblia? Peguei minhas versões mais contemporâneas (NVI, NTLH e Viva) e, em todas, ele aparecia; e na Revisada, utilizada pela Igreja Batista, aparece como sodomia, que depois de uma consulta ao dicionário aprendi que é "ato sexual que envolve relações anais, entre um homem e uma mulher ou entre homossexuais masculinos". Além do efeminado, que vem antes de sodomia. Enfim, não existe desculpa para aprovar o homosexualismo, apesar de ser parte de nossa nova natureza amar todas as pessoas e respeitas as escolhas que elas fazem.

Enfim, acho que é isso.

P.S.: O Pr. Ricardo Gondin é uma benção!


http://beadisciple.wordpress.com

vitorferolla disse...

É rir para não chorar...

Anônimo disse...

Norma disse que deixou de ler Yancey. Coitada! Deixei de fazer o mesmo com ela muito tempo atrás devido ao que ela mesma condena nos outros. Quanta besteira, quanta pretensa intelectualidade, quanta arrogância! Que distância de Cristo!

Fabinho Silva disse...

Nunca li Yancey, pra falar a verdade... mas lia o pessoal da Fides Reformata. Lia e ainda leio. Me perguntaram como posso ler Pavarini e Augustus Nicodemus ao mesmo tempo... oras, lendo com os olhos. Todo o direito à Norma de se manisfestar e ser conservadora, de ler Julio Severo e tais... pra isso existem blogs. Mas, minha opiniao pessoal: o povo ultra-high-conservative perdeu a noção... assim como o povo da graça barata, do inclusivismo puro e simples... Telma, eu nao sou gay!!!

raizdumaterraseca.blogspot.com

Alysson Amorim disse...

Curioso. Sempre achei o Yancey moderado - demasiado moderado.

Anônimo disse...

Homossexualismo não está na Bíblia?

Você já leu a Bíblia?

Se leu, pode dizer qual foi?

wilson tonioli disse...

Pava, não liga, ela é apenas uma pessoa que acredita em si mesma...
Acredita em 'Norma'.
wilsontonioli

___Maio___ disse...

Estamos falando do mesmo Philip Yancey ? Eu conheço um, tenho apenas 18 livros dele...e nem sou fã não!!! Mas, é o mesmo???

Sabe, aprendi uma coisa com meu pai, apesar dele ser um esquisito (antropologo)que vive isolado das pessoas e do mundo...ele me ensinou sobre as "palavras", elas podem carregar um significado, como também podem estar vazias!!! Pela minha ignorância, notei uma coisa, ela começou bem dando a opinião de que não gosta, foi sincera, mas depois se perdeu...uma argumentação meio confusa e um tanto obscura!!!

Norma, parabéns...pela coragem!!!

Enfim...

Será que precisamos disso tudo?

Dos dois lados do Equador disse...

Olá Priscila,

Paz sobre você.

Responderei somente à sua questão sobre minha frase 'pois escondem que a palavra "homossexualismo" não existe sequer na bíblia".

Reparem que homossexualismo é palavra recente no vernáculo. É provavel que exista a partir do século XIX. Vale dizer que existia palavra, na época de Paulo, que indicava conotações semelhantes. No entanto Paulo não as utiliza. Interessante não?!

Uma breve exposição visto que o espaço não é para tal:

- A história de Sodoma e Gomorra só é vista como atrelada a homossexualimso a partir da Idade Média. Na verdade o que ocorreu nas duas cidades tem a ver principalmente com desigualdades sociais do que outra coisa.

- Levítico 18:22 e 20:13: O texto trata não necessariamente contra o homossexual (da mesma forma da proibição a respeito do contato com mulher na época menstrual não é um texto contra a mulher) mas sim uma assertiva numa sociedade patriarcal-tribal que está se levantando contra os ritos pagãos-sexualixados dos povos de seu entorno.

- Romanos 1: 21 a 28: trata-se de uma bronca de Paulo pelo prazer desenfreado, dirigida a sociedade romana totalmente depravada. Assim os homens heterosexuais dava-se ao sexo com gays apenas para terem prazer. Era pura sacanagem.

- 1 Co. 6:9-10 e 1 Tm 1:10: a maioria das traduções trazem "efeminados" e "sodomitas". No entanto não existe tal palavra nos originais. Veja bem: não existe! Da mesma forma que sodomita. O que há ali é maldade. Maldade que de quem estava fixado no tema e, por fixação, fez o que a maioria faz: potencializou o pecado a fim de expiar a própria dúvida/dor/culpa.
Sodomia, já vimos, não era o pecado do "intercurso sexual entre dois homens", mas, poderia ser muito melhor contextualizado por "desigualdade social".

O termo traduzido por "efeminado", no português, melhor ficaria como "mole" significando, por exemplo, "fraco de caráter.

E assim vai.

Nem tudo que está na bíblia faz bem, dependendo dos olhos que traduzem. E dos olhos que lêem afinal o que os olhos só consegue enxergar o que a alma e o espírito sentem.

Bjão em todos,

Alguém já disse que a "igreja" trata igual o avarente e os gays (lembremos: não há tal palavra no AT, basta pesquisar com sinceridade). No entanto, não trata: é só ir em qualquer igreja evangélica. Qualquer. Quem quiser continuar enganando-se que continue. Quem quiser aprender do Evangelho que leia-o detidamente sem nenhuma ajuda, sem intépretes pré-autorizados, sem exegeses de escritórios.

No Caminho onde fomos chamados a não potencializar nada afinal tudo potencializado dá em bomba atômica, como um simples átomo de urânio.

(Aliás se é para potencializar algo pontecialize o Amor, pois, no fundo, a questão é só essa. O resto é apenas revisão ortográfica de quem quer levar as coisas para onde de nada serve: para o biblicismo),

Vando

Dos dois lados do Equador disse...

Ah, qnt ao Yancey, concordo com o Alysson. Acho-o demasiadamente moderado em algumas vezes. Deixa de tocar em pontos importantes em outras qnd o texto está pedindo exatamente isso. Deixa tranparecer que sabe que o que diz é demolidor mas não vai além.

Anônimo disse...

Interessante a discussão.
Muito bom ver pessoas que comungam da mesma fé e divergirem de maneira sábia em alguns pontos não-essenciais da vida cristã.
Gostei muito de todos os cometários, parabéns a todos que escreveram.
Queria deixar um indicação de leitura para os leitores do blog: O Apóstolo dos pés sangrentos.

Deus abençoe a todos!

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