11.3.09

O filão religioso

As Casas Bahia disputam o mesmo mercado que a Magazine Luiza. As duas lojas se engalfinham para abocanhar o filão dos eletrodomésticos, guarda-roupas de madeira aglomerada e camas de esponja fina. Buscam conquistar assalariados, serralheiros, aposentados e garis. Em seus comercias, o preço da geladeira aparece em caracteres pequenos, enquanto o valor da prestação explode gigante na tela da televisão. A patuléia calcula. Não importa o número de meses, se couber no orçamento, uma das duas, Bahia ou Luiza, fecha o negócio - o juro embutido deve ser um dos maiores do mundo.

Toda noite, entre oito e dez horas, a mesma lengalenga se repete nos programas evangélicos. Pelo menos quatro “ministérios” concorrem em outro mercado: o religioso. Todos caçam clientes que sustentem, em ordem de prioridade, os empreendimentos expansionistas, as ilusões messiânicas e o estilo de vida nababesco dos líderes. Assim, cada programa oferece milagres e todos calçam suas promessas com testemunhos de gente que jura ter sido brindada pelo divino. Deus lhes teria abençoado com uma vida sem sufoco. Infelizmente, o preço do produto religioso nunca é explicitado. Alardeia-se apenas a espetacular maravilha.

Considerando que a rádio também divulga prodígios a granel, como um cliente religioso pode optar? Para preferir uma igreja, precisa distinguir sobre qual missionário, apóstolo, pastor ou evangelista, Deus apontou o dedo. E se tiver uma filha com leucemia aguda, não pode errar. Ao apelar para uma igreja com pouco poder, perde a filha.

O correto seria freqüentar todas. Mas como? Em nenhuma dessas igrejas televisivas o milagre é gratuito ou instantâneo. As letrinhas, que não aparecem na parte de baixo do vídeo, afirmariam que, por mais “ungido” que for o missionário, um monte de exigência vem embutida na promessa da bênção. É preciso ser constante nos cultos por várias semanas, contribuir financeiramente para que a obra de Deus continue e, ainda, manter-se corretíssimo. Um deslize mínimo impede o Todo Poderoso de operar; qualquer dúvida é considerada uma falta de fé, que mata a possibilidade do milagre.

Lojas de eletrodoméstico vendem eletrodoméstico, óbvio. Igrejas evangélicas comercializam a idéia de que agenciam o favor divino com exclusividade. E por esse serviço, cobram caro, muito caro. Afinal de contas, um produto celestial não pode ser considerado de quarta categoria. A "Brastemp" espiritual que os teleevangelistas oferecem vem do céu.

O acesso ao milagre se complica, porque todos mercadejam o mesmo produto. Os critérios de escolha se reduzem a prazo de entrega, conforto e garantia.

Opa, quase esqueci! As lojas, em conformidade com o Código do Consumidor, são obrigadas a dar garantia, mas as igrejas evangélicas não dão garantia alguma. O cliente nunca tem razão. Quando a filha morrer de leucemia, o pai, além de enlutado, será responsabilizado pela perda. Vai ter que escutar que a menina morreu porque ele “deu brecha” para o diabo, não foi fiel ou não teve fé.

Mercadologicamente, Casas Bahia e Magazine Luiza estão bem à frente das igrejas. Melhor assim, geladeira nova é bem mais útil do que a ilusão do milagre.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

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10 comentários:

manoeldc disse...

também fico indignado com esse comércio absurdo da fé. Os vendilhões do templo estão aí coma mesma sofreguidão de lucro. Só que os de hoje usam seres humanos como moeda de troca. Repugnante.

Anônimo disse...

Mas deve ser dito a todos os Elias desanimados com o culto generalizado a Baal: "ainda existem 7000 que não dobraram seus joelhos".

F. B. Goulart

Anônimo disse...

Excelente texto!

Concordo em gênero, número e grau!

Anônimo disse...

O pior é os crentes que acreditam ter o nome do SPC do CEU rs rs.

Ai, tem que parcelar.

Abços Pava

Anônimo disse...

Ricardo é como os políticos de Davos, que falam sobre a pobreza, mas vivem esbanjando. Ele fala de "o estilo de vida nababesco dos líderes", censurando-os, mas deveria antes olhar o seu próprio estilo de vida: o lugar onde mora, seu apartamento chic, o carro que usa, o "carrinho" pick-up de luxo zero que deu à esposa... é fácil falar de "barriga cheia". Ah, é mesmo!

VAMOS ORAR !!! disse...

Oi Ricardo,boa noite.
Há uma criação de avestruz em vez de ovelhas.Vamos juntos acionar o PROCON CELESTIAL ?
tito de Brasília.

Anônimo disse...

Gosto muito do meu irmao Ricardo Gondim, dos seus livros, acompanho os seus textos no seu site e me identifico por servir a Jesus, pelo amor a verdade e depois pelo amor a literatura que ele cultiva. Mas muito me preocupa o fato de que vendilhoes dos templos sempre existiram e vao existir e é necessário que eles sejam combatido, mas o evangelho é o poder de Deus pra salvar o perdido, libertar o cativo e também curar o doente, ou não o é?
Então acho válida toda manifestação em defesa da verdade, se bem que, a verdade por si só não se defende, pois Jesus é a verdade e se necessário for ele aparece a muitos saulos para o convencê-lo, mas sigamos adiante mostrando um evangelho nao somente em demonstracao de palavras de sabedoria humana, mas na demonstração do poder de Deus, através de curas físicas sim, emocionais e espirituais, através de milagres como cura de cancer sim, paraliticos andando, surdos ouvindo, cegos vendo, ou não foi para isso que se manifestou o filho de Deus ( Jesus)? Devemos viver um evangelho pleno que ensine o caminho da verdade, mas que também seja um agente da operação do poder de Deus.
Abraços Pava e Ricardo.
Pr. Ade

Anônimo disse...

CARLOS EDUARDO SP

O brasileiro gosta de se iludir é absurdo que alguém acredite um pastor de qualquer igreja fulera dessa pode fazer milagres são todos picaretas já reparam como um pastor e um político se vestem igual é pra pensar.

Anônimo disse...

Concordo no interesse mercantilista de algumas igrejas evangélicas, mas a autor do texto ( com todo respeito que devo ao cidadão Sr.Ricardo Gondim) é suspeito para fazer tal citação.

Pavarini disse...

prezados anônimos (5 e 9),

permitam-me algumas ponderações s/ os comentários de vcs.

conheço vários pastores cuja remuneração provoca desconforto em algumas pessoas. eles podem ser divididos em duas categorias:

1- a primeira é comum especialmente em igrejas neopentecostais como as que mantêm os programas citados. a grana que cai na conta dos líderes na maioria das vezes é um assunto "entre eles e Deus".

não há prestação de contas e o uso de caixa 2 é recorrente. ao ser questionados s/ isso, respondem c/ aquele papo de "tocar nos ungidos do Senhor".

esse modus operandi funciona tanto em igrejas enormes como em pequenas congregações. há milhares de pessoas que optam por pertencer e sustentar esse tipo de ministério.

2- no segundo caso é possível listar comunidades em que o líder não legisla s/ o próprio salário e, na maioria das vezes, sequer assina cheques da igreja pois existe equipe que cuida da área financeira.

dependendo do regime administrativo da igreja, orçamento e balanço são apresentados publicamente em assembleias ou submetidos a conselhos fiscais.

nessa segunda modalidade, há muitas igrejas grandes cujos pastores têm salários superiores à média baixíssima vigente no país.

entre vááários casos nesta categoria, nunca os vi alardear que o carro que possuem "é fruto da prosperidade" ou "sinal de que a bênção de Deus está naquela igreja", como é comum nas comus neopentecostais.

se os salários pagos a essa diminuta parcela de líderes são demasiadamente altos ou não, + uma vez é questão interna das respectivas comunidades.

big abraço

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