11.7.09

Ícones da ortodoxia

Leio História do medo no Ocidente, de Jean Delumeau (Companhia de Bolso). Vou devagar, o volume de informações excede meu hardware. Mas já aprendi sobre o pavor que o mar impingia aos antigos navegadores, que acreditavam em leviatãs, sereias e polvos gigantes.

Antes de partir, muitos sacrificavam animais para não serem tragados, caso ultrapassassem as linhas imaginárias do medo. O Cabo do Bojador, na costa ocidental da África, era considerado o fim do mundo. Dizia-se que os ousados nunca voltavam.

Delumeau afirma que “os elementos desencadeados – tempestade ou dilúvio – evocavam para os homens de outrora o retorno ao caos primitivo. Deus, no segundo dia da criação, separara ‘as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento’ (Gênesis 1:7). Se, com a permissão divina, está claro, elas transbordam novamento os limites que lhes haviam sido designados, o caos se reconstitui” (pag. 62).

Delumeau relata como se desenvolveu o medo de bruxas, feiticeiros e magos que acabaram na fogueira inquisitorial. O historiador francês afirma ainda que alguns ícones da ortodoxia, geralmente invocados para sustentar argumentos conservadores, respiravam o mesmo ar supersticioso de seus dias.

Santo Agostinho acreditava em astrologia. Empenhava-se, inclusive, em distinguir a lícita da ilícita. Suas Confissões (V, cap. 1º) admitem que as estrelas podem ser os “sinais anunciadores dos acontecimentos, mas elas não os rematam”. Pois, “se os homens agem sob a coerção celeste, que lugar resta ao juízo de Deus, que é mestre dos astros e dos homens?”.

O que Delumeau diz de Lutero, que tem a reputação de ser implacável contra a crendice popular?

Anunciando a um correspondente a morte do príncipe-eleitor de Saxe (em maio de 1525), Lutero esclareceu: "O sinal de sua morte foi um arco-íris que vimos, Philippe [Melanchthon] e eu, à noite, no último inverno, acima da Lochau, e também uma criança nascida aqui em Wittenberg sem cabeça, e ainda uma outra com os pés ao contrário" (pag.110)

Eis o que afirma sobre o venerado Calvino:

Ele opõe então a astrologia “natural”, fundada “na conformidade entre as estrelas e planetas e a disposição dos corpos humanos”, “à astrologia bastarda”, que procura adivinhar o que deve acontecer aos homens e “quando e como eles devem morrer” (pag. 108).

Advirto, portanto, os austeros defensores da mais reta doutrina: cuidado quando precisarem alicerçar suas afirmações dogmáticas citando a verdade de Agostinho, Lutero e Calvino. Eles, iguais a nós, eram humanos. E também falaram tolices.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

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3 comentários:

Leonardo Gonçalves disse...

E de tolices o Gondim entende. E como! =)

jussara disse...

"iguais a nós, eram humanos. E também falaram tolices." Gostei!

CHICCO SAL disse...

Taí uma área de conhecimento muito interessante e que poucos dominam com precisão: a Astrologia Bíblica. Poucos sabem que todos os signos do Zodíaco são mencionados na Bíblia, poucos se lembram o que ela mesma fala sobre os astros - "... sejam eles para sinais..." (Gn 1:14)
E que maiores sinais senão a de uma "linguagem" na qual a história da salvação era contada? (Cf Salmo 19:1-4 - compare várias versões)
Muitas vezes, a maioria de nós se esquece que durante alguns milhares de anos o ser humano não contou com a Bíblia escrita e impressa tal qual a conhecemos, que durante séculos restava ao homem apenas olhar para as estrelas e indagar...
Estudiosos afirmam que a palavra dirigida a Abraão em Gn 15:5 - "Olha para os céus e conta as estrelas..." foi proferida dessa forma porque Abraão tinha conhecimento "científico" de sua época, de alguém acostumado a estudar os céus o que, muito provavelmente, era verade haja vista de onde ele saiu, da terra de Ur dos caldeus.
Há várias outras estórias interessantes na Bíblia a respeito de homens crentes que eram iniciados nessa arte/conhecimento, a mais conhecida delas, talvez, a de Daniel que acabou sendo chefe dos sábios da corte da Babilônia, lugar identificado e associado sempre com as estrelas, os astros. Certamente, o objetivo último dos babilônios era a adoração dos astros o que era abominação para os judeus que adoravam unicamente a Jeová.
No Novo Testamento há várias citações também de astros.
Para quem quiser se iniciar no assunto recomendo a leitura inicial de um livro desconhecido por essas nossas plagas: "The Witness of the Stars" de E. W. Bullinger
Finalmente, lembrem-se das palavras de Paulo, em 1 Tessalonicenses 5:21 - "provai todas as coisas...retende o que é bom..."
En Agape,

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