7.9.08

As mãos reverentes

A ansiedade herética da humanidade resplandece-se na arte em algumas de suas profanas colocações, e a satisfação dos observadores se torna evidente. Diante da religião majestosa impera os tentáculos de seus amantes - vislumbrados como artistas apaixonados pelo sacro -, porém artisticamente seculares, livres ao abraço das ironias da mente humana.
O terror da arte à religião é dissimular, pelos minuciosos trejeitos de uma ortodoxia apaixonada, o que de mais perverso entrelaça a credulidade ao ceticismo, o santo à transgressão. Tal feito encontra-se na tela de Alonso Cano: o santo Bernardo de Clairvaux se entrega ao leite materno da referida Virgem Maria, aos olhares do clérigo que, prostrado perante o milagre, une as mãos reverentes.
Artístico, profano e irônico, como a mente humana.
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Filipe Liepkan, no blog O Templo Felpo.

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