7.9.08

O desastre da consciência

"Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.”
Kafka

A infindável discussão acerca da utilidade/inutilidade da literatura, conquanto tenha seu lugar, está um tanto distante de conceber resposta definitiva. Deixo a sala de discussões (que pressupõe a possibilidade de uma única resposta, universalmente válida) e me ponho a vagar na ameaçadora vastidão, farejando uma solução despretensiosa, válida para nada mais que minhas tripas.

Minha relação com a literatura não é (pelo menos não fundamentalmente) qual a da madame com seu colar de pérolas. Como Kafka, quero livros que me afetem “como um desastre”. Livros cujas palavras sejam o fôlego que conflagrarão criaturas interiores.

Uma metáfora quase perfeita para a literatura, esse machado kafkiano, perfurando a superfície sólida do “mar congelado” e abrindo a senda que leva ao abissal, a morada do assombroso.

O machado literário de Raskolnikov. Talvez Kafka pensasse em Dostoievski. Depois do machado no crânio da velha usurária nada seria como antes. O jovem Raskolnikov toparia com os monstros mais horrendos habitando seu próprio quintal.

Esse é o desastre que a literatura provoca em mim. O desastre da consciência.

Alysson Amorim, no blog Amarelo Fosco.

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Um comentário:

Anônimo disse...

Alysson, sua pena é genial, sua alma sensível, seu pensamento instigante. Não sei se você transita entre os evangélicos.

Se sim, tome cuidado. Eles podem vampirar sua alma...

Aline.

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