7.2.09

Do lado ou de frente?

Meu irmão comprou um telescópio para registrar o desenho das estrelas, eu vou a restaurante decifrar a posição das palavras.

Restaurante é um observatório do amor.

Divido os casais naqueles que sentam um ao lado do outro e os que ficam um na frente do outro. É um detalhe determinante da relação, como segurar as mãos da namorada como uma esponja ou entrelaçar os dedos.

Os que ladeiam a montaria das cadeiras não infundem paixão. São mais amigos do que amantes. Quase irmãos: mudos, telepáticos. Repartem igual perspectiva da paisagem. Não completam as observações, repetem as versões do lugar e do momento. É triste quando são abduzidos por um programa de tevê.

Distraídos entre si, já se esgotaram, almoçam e jantam fora unicamente para comer.

Optam por testemunhar a movimentação da sala ao mesmo tempo e na mesma hora. Não há a concentração no rosto da companhia. Dependem do que acontece externamente para encontrar assunto.

Podem sussurrar e beijar com mais facilidade, mas são os que menos beijam e se acariciam. A proximidade dificulta. Conversam olhando para longe. Não há paredes de braços para confidências e angustiada aproximação do peito na quina para se ouvir. Não empurram a garrafa, os copos, o mal-estar e os arranjos para não perder a permanente perseguição das pupilas.

Talvez conserve a dois a diagramação familiar completa (como se os filhos estivessem presentes), mas me incomoda a falta de provocação frontal, do desafio dos gestos, dos avanços das pernas debaixo da toalha. Evocam desconhecidos em refeitórios de empresas, reunidos somente pela cadeira vazia e ausência de mesa própria. Retratam o cansaço no ônibus de passageiros retornando do trabalho. Chamam o garçom, aliviados, esticando a cordinha da parada. Descem em silêncio para seus problemas.

Pertenço ao grupo que senta frente a frente. Faço um quarto com guardanapo. Aponto a faca e o garfo dependendo das frases. Existe uma oposição excitante. Fecho os segredos com os ombros. Estamos em público, entretanto reservados, íntimos, pessoais. O restaurante flutua. Preservo a minha mulher para a troca de críticas e de ofensas. Não a salvo da demonstração do afeto. O desejo contraria o conforto.

Todo beijo caminhará uma quadra de linho. Todo beijo é um noivado. Levantado, esparramado, escandaloso, atravessado, sobrevoando as travessas.

Por um instante, breve e memorável instante, a mesa conhece a vastidão da cama.

Fabrício Carpinejar
arte: Hugo Van der Goes

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